Eu Não Estou Aqui

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Phyl D. Martins · Belo Horizonte, MG
25/1/2013 · 1 · 0
 

Não satisfeita em instigar a curiosidade e promover a reflexão, a Mostra Verão Arte Contemporânea fomenta a comoção social. É segundo este pressuposto que surge a instalação audiovisual “Eu Não Estou Aquiâ€, montada no Memorial Vale. Primeiramente, é um instrumento sociopolítico de expressão e, depois, é, efetivamente, uma plataforma forte de melancolia criativa. A obra dialoga com o público sobre o desaparecimento de crianças em Belo Horizonte por meio da cenografia e das projeções.

Assim que se entra na galeria, é possível que se depare com uma mesa, cheia de pratos, à luz turva. Encima dos pratos existe algumas projeções de comidas, que ora desaparecem e reaparecem, de um modo incômodo ao espectador. Isso, obviamente, na mais simples das leituras, pode representar que uma ação cotidiana é alterada pela falta de alguém. Os lares, tradicionais e previsíveis, se tornam tristes - é como um lembrete imagético que grita: “Eu não estou aqui!â€.

Nas paredes, fotografias formadas de vários rostos de modelos, atores que assumiam o papel de crianças sumidas, com a estética crua dos lambes e folhetos espalhados por pontos estratégicos da cidade. Era absolutamente pavoroso: eles desapereciam de repente, a projeção se apagava do nada, e, em mim, apareceu um rugido interno forte, convocando uma espécie de socorro, a fim de reencontrar as figuras. A ocupação das paredes se tornou um anseio e, nesta altura da narrativa, uma mãe anônima já começara a relatar o sumiço de seu filho.

Chega a ser realmente dispensável citar os teóricos da Arte que explicam a cartase, a identificação ou qualquer outro fenômeno da interação entre esta instalação e seu observador. O que pode-se dizer é que o vínculo entre ambas as partes é orgânica, uma via de mão dupla de energias pesadas, esclarecedoras e frenéticas.

Apesar do tema, a instalação também nos faz remeter a outros tipos de perda. A construção estética realizada pelos textos, direção de áudio e vídeo permite reativar sentimentos de imersão e emersão em momentos difíceis.

Belo Horizonte, MG, Brasi, 15 de janeiro de 2013.
Phyl D. Martins

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