Grandes histórias do rock 2002/2003 - Capítulo 2

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Marcelo Mendes · Brasília, DF
1/6/2006 · 0 · 0
 

Série de textos escritos e públicados entre 2002 e 2003

Capítulo 2
Ambervision: Medo e delírio em Florianópolis

Tínhamos combinado uma conversa sobre os Ambervisions com Zimmer, vocalista e tocador de maracas da banda - não necessariamente nessa ordem. O contato tinha sido feito pelo meu habitual cicerone na cena de Santa Catarina, Demétrio Panarotto, que, também como de hábito, nos acompanharia na conversa - ele é responsável pelas perguntas mais obscuras e complicadas. Já havíamos feito duas matérias seguindo essa rotina, uma das quais Demétrio era a fonte principal (a saber: a matéria sobre o Repolho, da qual ele faz parte, e a matéria sobre a Pipodélica, da edição anterior). Dessa vez, o que era uma simples conversa a respeito da banda de Surf-rock-punk-caveira, seja lá como for, se transformou numa pequena viajem de medo e delírio pela rodovia que liga o centro de Florianópolis à praia dos Ingleses.

A conversa girou em temas delicados e muitas vezes difíceis de se compreender, como o que quer uma banda, que não quer, por exemplo, seguir o rastro aberto por uma mega-banda. O que quer, enfim, alguém que se mete a fazer música nesse meio, digamos, alternativo, mesmo sabendo que pode não chegar a lugar nenhum, nos termos convencionais (casa, carro, telefone celular, estabilidade, salário, etc.). E a primeira paulada vem através de uma frase do amigo Xuxu, da Pipodélica: "só existe ideologia a partir de dez salários mínimos". Essa é uma das muitas pérolas de Zimmer, que se mostrou muito mais do que parte dos Ambervisions: uma espécie de teórico do que ele defende como arte, a música alternativa. Ideólogo acima dos referidos salários, Zimmer pode ver o que faz com a banda como uma expressão de liberdade, independência. Óbvio, não é disso que sobrevive, mas do seu trabalho convencional, assim como a maioria dos músicos desse meio.

E vem outra paulada: "ninguém quer um tijolo na vidraça, mas a foto do tijolo na vidraça todo mundo acha bonito", esse é o resumo do que eu chamaria da teoria da merda, ligada a independência de quem faz o que os Ambervisions fazem: o que o mercado deseja é a imagem de rebeldia, da qual o rock se serve, mas não a coisa em si, que incomoda, suja, chateia. A imagem da merda, nunca a merda mesmo. Os responsáveis pela produção mais ousada nunca estão no mercadão, mas de alguma forma, serviram e sempre servirão de modelo para o que é comercialmente viável e o que sobra é um vulto, um pequeno traço das experiências possíveis quando não se têm compromissos financeiros. E dá-lhe erudição: cita uma série de músicos obscuros, que "a gente não conhece", como G.G. Allen, Aguilar e a Banda Performática, e outros dos quais não me lembro o nome, mas que são exemplo perfeito para o que o rapaz quer nos explicar. Sua visão é a de que não precisamos do mainstream e isso fica claro na sua resistência em dar entrevista (nesse caso, vencida pela admiração confessa pelo nosso site), apesar da receptividade da mídia local. Em recente entrevista cedida pela banda ao principal jornal da cidade, Zimmer mandou um amigo que não entende nada de música falar por ele e pela banda. Ele mesmo só fora na sessão de fotos e se auto-intitulou Gordinho Massachussets. O jornal comprou a história, o resto é lenda - e já rendeu muitas gargalhadas, sem nenhum prejuízo para nenhuma das partes interessadas (pelo menos não mais do que o habitual, em se tratando da grande imprensa).

A viagem apenas começara e, confesso, vai ser difícil falar de tudo o que falamos. Falamos da banda, da suposta cena catarinense, de mercado alternativo, de - pasmem - rock progressivo, do disco novo que está para sair, dos Ambervisions, do disco velho, dos shows, da relação da banda com outras, das semelhanças entre Repolho e Ambervisions, de comida, de operação para redução de estômago e obesidade (Zimmer está nos 140 Kg), de problemas cardíacos... Tudo isso e muito mais dito dentro do carro sendo dirigido pelo distraído Zimmer. (Destino: estúdio do Alexei Leão, produtor mais badalado da "cena de Santa Catarina" e objeto de uma futura matéria, para ouvir algumas das músicas do novo disco dos Ambervisions, que está para sair.)

Sobre os Ambervisons: história e devaneios

Os Ambervisions não gostam de falar de si mesmos. Seguindo uma espécie de tradição das bandas mais recentes (chamadas genericamente) de surf music, eles criaram em torno de si e da banda uma espécie de lenda, de ficção, que é difícil transpor para saber o que realmente rola - o melhor exemplo disso é a americana Man...Or Astroman?. Para Zimmer, tudo o que você precisa saber sobre a banda está no show - o que seria também a expressão máxima da criatividade da banda, ao contrário das músicas, que seguem o padrão surf de ser. Particularmente, assisti alguns shows da banda e posso entender o que ele quer dizer com isso. Os Ambervisions é uma daquelas bandas que fazem espetáculos, pequenas festas mesmo, atos que realmente desestabilizam a platéia através do humor. Num dos shows que vi, em Goiânia, há dois anos, Zimmer parecia possuído, descendo ao público e dançando como um louco - ele garantiu que "estava muito doido" naquele show, fazendo a ressalva de que não bebe, nem fuma, nem cheira, o que é impressionante notada a disposição desse enorme sujeito no palco - enquanto a banda metia a mão em seus instrumentos, preocupados mais com a performance, do que com uma possível execução bonitinha (se não me engano é de Amexa, guitarrista da banda, a célebre frase: "mais vale um gesto do que mil notas"). A sugestão de Zimmer para se falar da banda foi essa: pergunte para quem conhece, para quem já viu os shows - eles saberão falar melhor do que nós. Bem, tomei a liberdade de fazer esses breves comentários prévios.

Mesmo assim, conseguimos arrancar informações um pouco objetivas sobre a história da banda. Seu começo está ligado às outras bandas que hoje conformam a primeira divisão do rock de Florianópolis. Zimmer já havia tocado com Xuxu (da Pipodélica) e com Rodrigo 90 (dos Cochabambas), para dar exemplos. Da banda que havia feito com 90 nasceu Os Ambervisions: eles haviam gravado uma demo nos Estados Unidos, quando ambos moravam por lá, em meados dos anos 90 e, assim que retornaram, resolveram fazer shows. A banda chamava-se Chick Magnets e, para essa primeira formação, contava com Zimmer na bateria, 90 na guitarra e Amexa no baixo. "Ô, tu é o Zimmer? Oi, eu sou o Amexa", foi assim que o futuro guitarrista conheceu o futuro front-man dos Ambervisions, se oferecendo para tocar baixo na banda que logo fora abandonada por 90, que havia partido, de novo, para o exterior. Amexa e Zimmer se juntaram e criaram Os Ambervisions, a partir dos sons que estavam ouvindo (a saber: Astroman, Los Straitjackets e toda essa onda de surf music menos clássica, até, às vezes, mais punk) e da vontade de continuar tocando. Segundo Zimmer, Os Ambervisions está muito mais para o punk - mesmo sendo muito surf para o punk e muito punk para o surf.

Zimmer era baterista, mas correm lendas que ele foi expulso da posição pela incapacidade de manter o ritmo. Sua desculpa é de que as músicas, no tempo, eram muito rápidas e que, por isso, não mantinha o pique. No seu lugar entrou o baterista Cachorro (atualmente, exclusivo da Pipodélica), mas, na versão de Zimmer, essa substituição ocorrera por conta de uma viagem que teve que fazer e de um show que a banda já tinha marcado - imagino que tenha sido a desculpa perfeita do resto da banda para substituí-lo definitivamente. Mesmo tendo voltado a tempo para o show, não quis voltar à bateria, porque gostou demais da habilidade de Cachorro e, talvez já prevendo uma posição de mais destaque, sugeriu a Amexa que se tornasse o vocalista, mesmo não sabendo cantar - o que é verdade ainda hoje: das faixas do novo disco, apenas duas são cantadas pelo "vocalista" -, e tocador de maracas (que havia comprado na viagem) - e ele não toca em todas as faixas do próximo disco, uma espantosa presença ausente de sua habilidade como tocador de maracas. Assim se estabilizou a formação clássica dos Ambervisions: Amexa, nas guitarras; Arioli, no baixo (desculpe, mas quase não falamos de você e, por isso, só apareceu agora); Zimmer, nos vocais e maracas e Cachorro... Quer dizer, por falta de tempo, Cachorro saiu. No lugar dele entrou a baterista Cris, que foi responsável pela gravação do instrumento nesse novo álbum, a ser lançado, "Bons momentos não morrem jamais". No anterior, "Cada dia mais a mesma coisa", Cachorro foi responsável pela gravação e, segundo amigos bem próximos, a banda tinha ambições musicais: queriam fazer um disco "bem tocado" (que vergonha!).

Sobre os Ambervisions: shows

Zimmer, sem demagogia: "não existe Ambervisions sem público". Continua: "não me importo tanto com os discos, o importante é o show". O lance dos Ambervisions é o show; cada show, uma supressa; para eles, um estresse, porque têm que pensar em roupas, em caveiras... Além da energia que sempre empregam nas apresentações. Para Zimmer a banda anda na tênue linha entre o engraçadinho e o verdadeiramente divertido. Em uma palavra: sarcasmo. Infelizmente, a piada não é para todos, muito embora todos possam rir das estripulias do quarteto. Daí a desandar as comparações entre Repolho (representado por Demétrio Panarotto) e os Ambervisions (para entender melhor, leia a matéria sobre o Repolho aqui). Ambos pensam no show como um verdadeiro espetáculo, uma maneira de detonar alguma resposta do público. Além disso, há sempre a preocupação de não se repetir e, por esse motivo, a quantidade reduzida de shows que fazem, pelo menos aqui em Florianópolis. Quanto a qualidade musical? "Música é o que menos importa: é o que a gente faz entre uma piada e outra", ironiza.

Outro detalhe importante é que, todo ano, os Ambervisions saem para tocar em outros cantos do Brasil (prepare-se, sua cidade pode ser a próxima). Nesse ano, o quarteto se apresentou no 3º “1º Campeonato de Surf de Minas Gerais”. Nos dois anos anteriores, o alvo das apresentações bombásticas foi o Goiás - uma das quais citada nessa matéria. Nesses shows, fora de casa, os rapazes colocam a prova suas experiências conduzidas em casa. O resultado tem sido bom, segundo Zimmer. Até agora, o que vi também atesta essa declaração.

Uma palhinha do disco novo e gêneros injustiçados

Chegamos ao nosso destino. Depois de uma rápida passada na padaria - para comer uma coisinha - entramos no estúdio de Alexei Leão para ouvir uma faixa do tributo ao Ultraje a Rigor (breve, mais informações), da qual os Ambervisions fazem parte, com a regravação de "Nós vamos invadir sua praia", além de ser capitaneada por Zimmer - que convidou as bandas e entrou em contato com Roger, do Ultraje, que vai, também, gravar vocais numa das faixas do promissor disco dos Ambervisions, "Tele entrega a fudê" (coincidência ou não, a música é uma parceria com nosso cicerone, Demétrio), motivo, segundo Zimmer, da demora em se finalizar o disco. Mas o principal, pelo menos para mim, era ouvir alguma coisa de "Momentos felizes não morrem jamais". O disco é metade instrumental e metade com vocais, caminhando entre o surf e o punk, com desenvoltura. Ouvi três faixas: a punk "Desempregado", que ficou bem parecido com Replicantes (o disco também vai contar com a participação do Wander nos vocais da música “Visão de Raio-X”, que também compôs); "Eu não gosto dos Besouros (Pau no cu do iê-iê-iê)", punk rock sujo para escândalo dos fans dos Fab Four e seguindo a tradição que afetou o Rei do Rock, Elvis, no primeiro CD (nada demais, uma vez que para esses caras nada é sagrado e, pensando bem, não deveria ser mesmo - senão, vira nome de rua, etc.) e, finalmente, uma instrumental com a participação virtual de Zé do Caixão, a partir de uma gravação da TV (uma das famosas pragas do macabro personagem de Mojica Marins é proferida durante a música).O clima é bom, o som sujo e os convidados são inúmeros, como uma breve descrição faz notar - o que põe em risco a posição de Zimmer, uma vez que, das músicas cantadas, apenas duas são registradas por sua voz. O disco ainda não tem previsão de lançamento, mas vai sair em breve - muito breve.

Na saída do estúdio, e antes de nos dirigirmos para a barraquinha de cachorro quente (ninguém é de ferro!), uma confissão de Zimmer abalou a imagem que vinha construindo dele: o cara é fã de rock progressivo, "um dos gêneros mais injustiçados do rock", segundo o próprio. Nada disso aparece nas músicas dos Ambervisions, mas o conhecimento do cara impressiona (arriscou até uma listinha das 5 melhores, que reproduzo: 1. Cassiber, 2. Faust, 3. Henry Cow, 4. Van Der Graaf Generator e 5. Art Bears - quem entende do assunto, por favor, me diga se vale a pena ouvir mesmo!). "Não é só duende, cogumelo", continua, em sua inusitada defesa a um gênero que, a primeira vista, não tem nada a ver com o figura. Ele faz parte, inclusive, de um grupo que se reúne para ouvir e discutir o gênero. Meu coração estava partido, precisava arrancar alguma declaração que reativasse minha admiração pela banda e por Zimmer. "Os Ambervisions são muito valiosos para colocar em qualquer lugar", disse, ressaltando o Senhor F (1 ponto) e reiterando a posição da banda em se manter em silêncio, "saliva é caro" (e por isso estava só, o resto da banda não quer saber dessas coisas). Entre um cachorro quente e um refri, a salvação de sua imagem veio através de uma frase lapidar: "foda-se os anos 80" - mesmo livrando a cara do Ultraje. Pontos.

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