Grandes histórias do rock 2002/2003 - Capítulo 3

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Marcelo Mendes · Brasília, DF
1/6/2006 · 0 · 0
 

Série de textos escritos e públicados entre 2002 e 2003

Capítulo 3
Marcelo Birck: O Sábio que se retirou do mundo

Estávamos em plena quinta-feira, um calor infernal em Florianópolis, enquanto nos dirigíamos à casa de Marcelo Birck. No caminho, eu e Demétrio Panarotto, meu habitual cicerone entre as celebridades da música contemporânea, divagávamos sobre cachorros, hippies e projetos que não dão certo. Estávamos prestes a entrevistar um dos músicos mais iconoclastas da atualidade, não tínhamos pauta e nem sequer um gancho, afinal, a quem interessa um cara que se isolou do mundo e que não lança nada há mais de dois anos? Respondo: a quem não mede interesse pelo sucesso. Suávamos em bica, tentando achar o lugar. Realmente, Birck se isolou: seu apartamento fica num confim da Barra da Lagoa, atravessando uma ponte de madeira e um verdadeiro labirinto. Depois de quase pegarmos uma insolação, chegamos e fomos recebidos durante seu almoço, o qual resolvemos não atrapalhar – nem participar, uma vez que havíamos almoçado no Centro. Depois do almoço, e de colocar a conversa em dia – Demétrio está planejando gravar um novo CD do Repolho sob sua produção –, nos voltamos para a conturbada carreira de Birck, iniciando o inquérito, que resultou em quase três horas de bate-papo e muita chinelagem. Aos resultados, a quem interessar possa:

Tudo começou...

Começamos o papo do começo, ainda que não tenhamos chegado ao final. Mas aqui eu começo das últimas partes: Birck está bem, obrigado. Sua resolução, em se tratando de música, foi a de continuar sua carreira solo, sem alarde ou estardalhaço, mas com controle total dos resultados e dos cronogramas. Fiquei feliz em saber que o cara entrou nessa fase quase zen, mesmo lamentando que não seja possível vê-lo executando suas músicas ao vivo – pelo menos não por enquanto. “Não tenho ansiedade de tornar a coisa pública”, diz. Seu lema agora é fazer a coisa circular, ir para o lugar certo. Por isso, a reclusão e o tempo que se deu para colocar seu trabalho em perspectiva. Sua prioridade é ele quem define: “administrar minha vida”. Outro fato interessante é a incursão de Birck como professor universitário. Nesses últimos dias (em novembro de 2003), um de seus trabalhos foi escolhido para o III Encontro internacional de música eletroacústica, realizado na Universidade de Brasília, no qual foi muito bem recebido. Aliás, sua incursão na área da educação, mais o lançamento do seu primeiro disco solo foram os principais motivos de uma certa revitalização na carreira um tanto desigual do músico.

Birck, talvez por ter se lançado em terras nunca dantes navegadas, que seriam as fronteiras tênues entre a música considerada brega e outra considerada experimental, conseguiu arregimentar uma legião de desafetos, dado a sua persistência e o fato de conceber exatamente a dimensão daquilo que pretende e onde pode chegar. Trocando em miúdos: Birck deixou muita gente puta com sua concepção de música – e com o resultado disso, em disco, em banda ou no que diz respeito a sua carreira. Ao meu ver, para se aproximar do trabalho de Birck é necessária uma atitude radical, uma violência teórica: prescindir da noção de gosto. Pós-moderno, ou não, chame como quiser, o trabalho do músico não se presta a esquemas estabelecidos, não pode ser apreciado dentro de um limitado espectro de bom e ruim, certo ou errado. Não pode ser reduzido a um modelo a priori, pelo contrário, guarda a potência de uma estética semovente, e não una, como querem alguns exegetas do rock (por paradoxal que essas criaturas possam parecer). Esmiuçando ainda mais, o que quero dizer é que a música de Birck abre espaço para uma nova sensibilidade, é afeita não a algo “verdadeiro” de antemão, mas as potências do falso – no que diz respeito àquilo que ainda pode vir a ser (rock ou outra coisa qualquer) “real”, ou seja, uma verdade a ser criada, uma estética a ser estabelecida, uma sensibilidade a ser desenvolvida...

Para não perder em digressões, mais fatos: depois de sua saída estratégica da Graforréia e sua conturbada experiência com o Aristóteles de Ananias Jr., Birck se viu as voltas com uma certa má vontade em relação ao que, para muitos, poderia ser apenas sua cabeça dura, mas que pode, por outro lado, ser considerado o temperamento do cara. Os desafetos foram colhidos entre seus parceiros de bandas e gente envolvida com a “cena” de Porto Alegre, o que o deixou, de certa maneira, condenado ao limbo. O ápice dessa queimação de filme foi o lançamento do disco do Aristóteles que, segundo ele, teria sido um fim de carreira, tamanho o impacto: “as pessoas ouviam o disco ou viam o show e tomavam aquilo como ofensa pessoal”. Birck tornou-se uma figura non grata, um artista maldito, até ser recebido dentro de outro universo, o acadêmico, quando começou a ministrar aulas no departamento de música da UFRGS, o que fez com que, em outras esferas, inclusive naquela da qual lhe restava um certo ostracismo, o vissem com outros olhos. O lançamento do seu primeiro CD solo, livre de compromissos e obrigações –que poderiam redundar em cobranças – serviu para coroar a nova fase, que dura até hoje, essa fase zen em que o músico se retirou do mundo. Aliás, a idéia do título desse artigo surgiu de uma brincadeira de seu vizinho que, ao ler o I-ching que corresponde a Birck, começou com a frase: “o sábio que se retirou do mundo” – e, se levarmos em conta a subida que tivemos que fazer pra chegar no isolado apartamento do músico, poderíamos dizer que foi exatamente para fora do mundo que ele se retirou (a parte do sábio, entenda como quiser).

Depois da banda

Depois dessa limpada de barra do disco solo, que se deu principalmente através de elogios de fora do circuito de Porto Alegre, como, por exemplo, nas revistas Showbizz (em texto de Fernando Rosa, editor do Senhor F) e na Revista Trip (em texto de Hermano Viana), e de apenas uma apresentação ao vivo, Birck resolveu sair de Porto Alegre, se recolhendo nos confins da Barra da Lagoa, em Florianópolis, onde ocupou a cadeira de professor no departamento de música da Universidade Estadual de Santa Catarina (UDESC). Seu lance agora, além de ministrar suas aulas e seguir sua carreira acadêmica, é ficar em casa, gravando discos, aos moldes do que fez com seu primeiro solo, de 2000. O disco foi gravado aos poucos, nos estúdios Dreher e em casa, com um custo muito baixo e com uma boa repercussão. Esse é o caminho que pretende seguir para o próximo, que não tem data, nem previsão para sair – o que não quer dizer que Birck não está produzindo. Grande parte de seu trabalho atual está relacionado ou com as aulas a serem ministradas ou com a produção de discos e músicas de artistas como Repolho e Cochabambas, só para dar alguns exemplos.

Boa parte de sua obra, inclusive, está dispersa em parcerias com algumas figuras ilustres, como o parceiro Leandro Blessmann, com quem montou Os Atonais – que durou pouquíssimo tempo, apesar de ter se tornado algo cult –, com Demétrio Panarotto, do Repolho (e nosso cicerone), e outros artistas menos constantes, como por exemplo Júpiter Maçã e Frank Jorge – tudo isso reunido compõem a maior parte de sua produção musical. Curiosamente, para Birck, dentre esses trabalhos em conjunto, Os Atonais teria sido seu projeto mais bem sucedido em termos de relação pessoal: “até a hora de encerrar foi perfeita”. O mais importante, segundo o músico, foi ter mantido a parceria com Blessmann, mesmo depois de muita discussão e mesmo tendo sido essa, segundo ele, “uma das bandas mais criticadas que já tive”. Segundo ele, tratava-se de um alvo fácil, por ser um trabalho extremamente despretensioso. Despretensão, também, é a marca do trabalho que recentemente está produzido e que é capitaneado pelo mesmo Blessmann, d’Os Atonais, e que, assim como qualquer coisa que esteja relacionada com Birck hoje em dia, não tem previsão para sair: o disco da banda The Bengles. Trata-se de uma coletânea de músicas sobre a mítica personagem Benga, que, na discografia da Graforréia Xilarmônica, andou na América Central, dançou o minueto e foi considerada uma velha companheira. O disco seria uma “síntese da boa chinfra bem brasileira”, nas palavras de Blessmann. Nas gravações, que pude ouvir e que estão sendo mixadas em sua casa, ficou claro o clima bagaceiro que permeia esse trabalho, além do esquema precário da captação de algumas canções e mesmo do teor lírico delas – pérolas como “B.U.C.E.T.A”, “Clube Quente da Benga”, entre outras. O espírito desse trabalho, apesar de não ser relacionado diretamente com o músico, está dentro do que se costuma chamar por essas plagas de chinelagem – movimento que tem em Birck um dos fundadores.

Chinelagem circa 1984

Aos tenros 5 aninhos, Birck iniciou-se na vida musical, aprendendo com seu pai a manusear a eletrola movida a pilha de sua casa. Sob a agulha, muito Roberto Carlos, Beatles e Tropicálias em geral. Pulando para o final dos anos 70, muita disquoteque, que era o som da moda. Foi então, já por volta dos 15 anos, que resolveu comprar discos e tornou-se um ávido consumidor de bolachões dos Beatles, antes de decidir-se por ser músico. Seu primeiro instrumento, já nos anos 80, por incrível que pareça, foi uma flauta doce que veio suprir a vontade de tocar bateria. Além disso, começou a arranhar um violão. Seguindo essa história, Birck resolve, junto com seu amigo de infância Frank Jorge, que conhecera na famosa Rua das Flores, em Porto Algere, fazer música e a constituir a base para o que seria, por volta de 1984, a banda Prisão de Ventre, que também contava com seu irmão Alexandre Birck, o Alemão (atualmente tocando com o De Falla). A princípio, a banda não tinha direcionamento algum, além de provocar os mais sensíveis. Foi a partir de um show com o TNT, e depois de oito meses de trabalho sério, no Colégio João XVIII, que resolveram assumir em definitivo a chinelagem, vestindo roupas esquisitas achadas nos baús de seus pais, que sempre usavam para passear na Rua 24 de Outubro. Foi então que sacaram que era possível colocar para fora algo que lhes era espontâneo e resolveram continuar assim, apesar de investir um pouco mais seriamente na banda, estabilizando a formação e produzindo muito. Até que Jorge tivera que ir para o quartel. A banda durou apenas dois anos, pelo menos nessa fase mais profissional, em que resolveram gravar, ensaiar e trabalhar com mais seriedade.

Depois disso, veio a história que muitos conhecem: Graforréia Xilarmônica. Sobre essa história (que é contada com propriedade por André Vasquez, em seu livro “O que vocês perderam”) eu apenas gostaria de acrescentar um comentário bastante pertinente de Birck. A impressão que tive é a de que ele sabia muito bem como a coisa poderia render: “eu tinha uma visão precisa do que aquilo poderia ser”, diz. Para alguns fãs mais radicais, apenas a primeira demo da Graforréia, “Com amor, muito carinho”, com a participação de Birck, é digna de nota. Além desse primeiro trabalho, Birck participou da gravação de mais algumas músicas: “Sapato alto”, “Baixo elétrico e baixo acústico” e “Literatura Brasileira”, numa fase anterior ao primeiro registro oficial da banda – sem Birck. Foi nesse meio período, frente à indefinição dos outros componentes, que Birck resolveu sair fora.

Aristóteles e o fim

Saindo da Graforréia, Birck decidiu montar uma banda para fazer exatamente o que ele queria – música de vanguarda, com rock anos 60 e música brega. Foi assim que surgiu o Aristóteles de Ananias Jr. A essa altura, já possuía alguma experiência dentro do circuito, o que fez com que soubesse como aproveitar aquele trabalho, que tinha alguma repercussão dentro de um contexto, ao máximo. As músicas tocavam no rádio e o clipe de “Bico de pato”, um dos carros chefes da banda, tocou direto na MTV. Os problemas começaram a pintar quando surgiram pressões externas que começaram a abalar o trabalho, assim como a insistência para que começassem a gravar um registro oficial – além da demo e das diversas gravações que a banda fez. No início de 1995, por incrível que pareça, ainda era muito difícil achar um estúdio que se propusesse a registrar as idéias que passavam pela cabeça de Birck, uma vez que a maioria dos estúdios de Porto Alegre vinham da escola de gravação de jingle – na verdade, ainda hoje é comum em alguns estúdios um certo controle de qualidade, o que faz com que a preocupação com o resultado afete, inclusive, o gosto do cliente imediato, aquele que está pagando, em nome de uma gravação que vai servir de divulgação para a “qualidade” daquele estúdio. Foi assim que o disco ficou preso a exigências absurdas, determinadas por um certo padrão de qualidade, com o qual Birck, obviamente (e sempre), queria romper. Esperasse mais um pouco e as tecnologias que hoje dispomos, como computador e outros facilitadores, já estariam disponíveis – e a história, provavelmente seria outra.

O resultado do disco “ficou muito diferente do que deveria”, segundo Birck, por conta desses percalços, e apesar de ter conseguido finalizá-lo no recém inaugurado estúdio Dreher – onde dispôs de toda liberdade do mundo (mas era tarde demais: as gravações haviam sido feitas). Além disso, a demora da gravação fez com o que trabalho saísse defasado em relação ao rebuliço que conseguiram estabelecer no começo da carreira da banda – além do pique, perderam os espaços que haviam sido abertos. Uma pena, uma vez que o Aristóteles era uma “coisa radical, mas com inserção em veículo de mídia”, segundo o próprio Birck. A partir do lançamento do disco a coisa desandou, chegando ao ponto de fazer com que Birck considerasse esse momento como um fim de carreira. De certa forma foi. Ainda bem. Do outro lado do espelho, depois desse fim prematuro, o músico encontra-se no cenário que descrevemos no início da matéria, e, talvez, depois do primeiro disco solo e diversos projetos esparsos, no começo de uma nova e promissora carreira (?).


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