Homem-mulher

Tela de Adriana Pascucci (www.pascucci.com.ar)
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Gustavo Lucas · Brasília, DF
3/4/2006 · 0 · 0
 


Era para ser um dia como outro qualquer. Não foi. Acordou disposto com o sol na face. Inspirado, começou recolhendo as latas do chão. Não pensava, apenas executava o movimento. Bebeu água gelada. Foi uma noite de cacos. Abriu a porta do quarto e viu Joana no chão. A cena patética e cômica e trágica. Fechou a porta. Achou uma baga e ascendeu. O enjôo passou. Foi na noite anterior que Joana apareceu em sua vida. Enquanto olhava o prato sujo e queimado, analisava a situação. Estava prestes a descobrir a verdade. Levantou-se e colocou um som agradável. Não teria motivos para ficar triste. Havia feito muitas coisas prazerosas naquela casa. Deleitara-se com fartos seios. Na noite anterior se esbanjara de luxúria e obscenidade. O que de melhor o sentir humano poderia propiciar. Mas estava triste. Uma tristeza profunda. Agora na casa só ele, Joana e alguns objetos de prazer. Foi ver o que havia de estranho na geladeira. Parecia que não poderia pensar. Saiu. Olhou a rua com dificuldade. Que haveria de ser isso diante de palavras tão doces? O fato poderia resultar de uma conectividade de coisas. Muitas coisas. Dentre as quais seus sonhos. Foi passando pela rua onde a viu pela primeira vez sentada na calçada. Era de se admirar seu olhar sonhador. Meigo. Menina pobre sentada na calçada. Era tão bela. Foi tempo. Uma semana se passara. Agora era dia na rua que separava o bairro de Nossa Senhora dos Passos Errantes do Santo Antônio. Luiz Alfredo era um errante, ironia. Agora se apaixonara perdidamente. Como poderia apaixonar assim? Perguntava-se. Joana lhe havia dito que nascera na cidade de Hortelândia, que o interior era pequeno demais e precisava de novos ares. Ao chegar na padaria ainda se torturava. Pediu quatro pães e bolachinhas de chocolate. Apaixonara-se pela pessoa errada sim. Atravessou a rua. A primeira imagem de Joana não lhe saia. Angelical. Com o momento que de si não saía. Tempo que passara só jogando fora todos os amigos que lhe confiavam. Imagem santificada, Joana. A cada passo o sonho do amor infinito. A cada dia a eternidade soava o nome dela. Apertou o passo e foi para a praça tomar ar. O celular tocou. Era fumo, só tinha branco. Luzia em sua mente uma possibilidade que nunca lhe passara. A vida poderia se apresentar de forma diferente. Nunca sentira sensação melhor com alguém. Penava sua condição amargurada. Saudade que batia forte daquela pessoa. Saudade que causa dor lancinante. Saudade. Telefone na mão. Joana fora embora naquele dia se despedindo como numa prece. “Foi a melhor noite da minha vida amor.†Aquelas palavras não saiam de sua cabeça. Quem em sua torpe vida havia sido tão doce? Quem? Não havia mais o que pensar. Efetuou a ligação. Ela atendeu com rapidez. “É você meu doce de cocoâ€. Aquelas palavras entraram em sua mente como sol de primavera. Marcaram um encontro para a mesma noite. Quando a viu, pensou longamente: “Se um dia achasse ser o oposto, aceitaria. Foi o que de mais belo me aconteceu.†Beijos e abraços denunciavam os jovens apaixonados. Luiz nunca sentira tanta felicidade. Decidira que seria ela a mulher da sua vida. Era pra valer o amor que sentia. Depois de inominável noite de amor, adormeceu com o falo de Joana em suas mãos.

Gustavo Lucas é poeta, escritor e jornalista em Brasília

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