Eric Chulapa, respeitado historiador asteca, numa breve passagem pelo inÃcio do século XXI, concedeu a O Futurista uma rápida porém esclarecedora entrevista:
O Futurista: Como o senhor avalia o Zeitgeist atual?
Eric Chulapa: Não existe um Zeitgeist atual. Braudel, nos anos 50, falava de longa duração, mas flertava com a tipologia estruturada dos múltiplos tempos postulados. Um novo e diferente modo de percepção temporal. Admitia a existência de dezenas e centenas de tempos históricos. A longa duração existiu, mas foi um lapso na longa história da eternidade. As civilizações viviam os ciclos da natureza. Labutavam na terra, esperavam as colheitas, festejavam os rituais de fertilidade e acompanhavam as fases da lua. Dormiam de noite e trabalhavam durante o dia. A dissociação civilização-natureza foi uma ruptura mais antiga e mais inevitável do que alguns historiadores-antropólogos gostariam de admitir. Hoje - o que é o hoje? - cada ser vivo, cada célula do nosso organismo socal, vive num tempo particular. Dorme quando quer, come quando quer, copula quando que quer, compra sua ração enlatada nos supermercados e joga seu lixo tóxico nos grandes lixões. Tem o seu próprio relógio biológico. Hoje há pessoas vivendo na Idade Média, no Antigo Egito, no futuro da ficção cientÃfica, no buraco negro de gravidade zero e densidade infinita. A internet é um dos exemplos. Num futuro próximo a dicotomia universo "real" e virtual também será fatalmente superada.
O futurista: O que o senhor sabe a respeito das viagens no tempo?
Eric Chulapa: O que todo bom leitor de Ficção CientÃfica deve saber. Desculpe, sobre esse assunto não posso me estender. Há muita burocracia e uma frágil legislação a esse respeito, respeitada só pelos mais zelosos intelectuais. OF: E a Academia? EC: A academia, como instituição, também não existe. Mas até onde sei continuam lendo Chartier, Guinzburg, Pesavento, Darton, Hobsbawn e, claro, Braudel. Braudel é sempre uma importante referência sobre as estruturas do tempo, apesar de já estar superado, como Marx tem muito a dizer sobre a economia inglesa no século XIX. A longa e a curta durações - como o espaço de experiência e o horizonte de expectativa de Koselck - são conceitos ainda prenhes de significados. É inclusive um lugar-comum insistir na efemeridade, na puerilidade, na fragilidade, na transitoriedade da nossa - BrasÃlia, 2007 - condição pós-moderna. Assim como os fÃsicos descobrem as micro-cordas, os elétrons, as estruturas complexas e maravilhosas das moléculas, os historiadores buscam as permanências ocultas: comer, dormir, enterrar os mortos, fazer a guerra, bolar uma ideologia, uma metafÃsica, moldar uma experiência estética e artÃstica do universo. Até onde somos os mesmos que foram nossos antepassados? Quantas mutações já nos dissociaram deles? Somos, mesmo, terrestres?
O Futurista: O senhor viu o novo filme de Mel Gibson?
Eric Chulapa: Ainda não. Estou de passagem rápida. Parece que é bem realista a respeito dos Mayas. Já tem gente baixando pela rede lá nas pirâmides. Os mayas dominavam não só a cirurgia cardÃaca, os sofisticados calendários, mas também a internet banda larga.
Mais um texto bem legal, meu caro cara. Mas será que ele não é mais adequado ao Banco de Cultura? Dá uma olhadinha aqui e me diz o que você acha.
Abraços do Verde.
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