O último CD da banda francesa Défaut – intitulado Informel, em clara referência ao seu trabalho anterior – traz algumas faixas inusitadas. As dez primeiras, em consonância com os CDs anteriores, são de autoria dos membros da banda. A novidade está nas cinco últimas faixas: Adhésion, Philosophie animal, Ad libitum, Polycopie e Esclavage. No encarte do Formel, onde eles chegaram no auge do introsamento e regravaram sucessos de paÃses tão improváveis quanto o Uruguai, a Turquia e a Mongólia, os membros do Défaut anunciaram que estavam aceitando músicas inéditas de terceiros para o seu próximo CD. Quem quisesse ouvir sua composição na voz de Marcel, na guitarra de Albert, no baixo de Caroline e na bateria de Paul, precisava apenas registrá-la em copyleft e depois enviá-la em mp3, CD, fita analógica ou qualquer outra mÃdia para o Défaut. Para a surpresa da banda, porém, eles receberam apenas Adhésion e Philosophie animal, duas músicas, vale dizer, de altÃssima qualidade sonora e com letras inteligentÃssimas e extremamente politizadas. “O nosso objetivo, na verdade, era fazer um CD sem nenhuma música nossaâ€, explicou o baterista. “Na minha opinião, Adhésion e Philosophie animal estão entre as melhores músicas que já gravamos. É curioso, aliás, que elas sejam composições coletivas. Por exemplo, Philosophie animal, segundo contaram-nos seus autores, surgiu numa fogueira. Todos que estavam presentes participaram da sua composição.†Para suprir a lacuna de composições alheias, o Défaut resolveu partir para uma experiência mais radical: compor músicas ao vivo com a participação do público. Foi assim que surgiram as três últimas faixas do CD. O processo usado está representado na letra de Méthode, a décima música do Informel: “Sente numa roda... Pegue um violão... Peça para cada um dizer uma nota... Transforme a aleatoriedade em som...â€. Essa fórmula de composição foi aplicada pela primeira vez pelo Défaut num show em Vichy. Depois de tocarem Méthode, o vocalista perguntou à platéia o que havia achado da música. “Géniale! Géniale!â€, ouviu em coro. Depois, o que havia achado da letra. “Géniale! Géniale!â€. Só para não pisar em falso, perguntou também se a platéia falava sério. “Géniale! Géniale!â€. Então, lembrou da estranha chamada no encarte do Formel por composições alheias e propôs que aplicassem o Méthode, isto é, que compusessem, naquele exato instante, uma música. O público silenciou. E a tal ponto que se o vocalista não tivesse mostrado entusiasmo e determinação, a experiência teria fracassado. “Não se preocupem... O dever de vocês agora é abraçar o caos... Vocês dirão as notas aleatoriamente e a gente cuidará de organizá-las... Já cansei de ouvir que não é possÃvel compor nada interessante assim, embora seja exatamente assim que fizemos, nós do Défaut, a maior parte das nossas músicas, desde o nosso LP de estréia... Também já cansei de explicar que é um preconceito totalmente injustificado achar que não se pode fazer uma música a partir do caos... Mas eu garanto que trata-se de um preconceito... Com raÃzes históricas profundas, é verdade... Mesmo assim, não passa de um preconceito...†Em seguida, o vocalista passou a explicar algumas medidas que precisavam ser tomadas para viabilizar uma música feita com a participação de mais de mil pessoas: “Vocês dirão as notas... Então, irei repeti-las, pelo menos as que eu conseguir ouvir... O nosso ajudante aliâ€, disse apontando para o controle do cenário, “digitará tudo no telão. Em seguida, nós do Défaut tocaremos as notas e organizaremos as bases musicais. Depois faremos a letra coletivamente, usando o mesmo método. Pode começar a anotar, Jeanâ€. A muito custo Marcel conseguiu arrancar do público a primeira nota. Mas depois que ela foi projetada no telão, o público, enlouquecido e tomado de entusiasmo, começou a gritar aleatoriamente tudo o que sabia e não sabia: lá, si, ré, dó, mi menor, sol sustenido, fá com nona, bé bemol, etc. “Bé bemol?â€, riu Marcel. “Anota essa aÃ, Jean. Vamos dar um jeito de tocá-laâ€. A cada três ou quatro notas, Marcel pedia a Jean que digitasse no telão um espaço para separá-las. Ao fim de dois minutos, estavam no telão cinco seqüências de notas. Então, ele pediu para o guitarrista tocar cada uma delas e para o público eleger a que achasse melhor. Venceu a quarta seqüência, a com bé bemol. De fato, mesmo para os entendidos de música, ela ficou com uma sonoridade incomum e sedutora. Depois de feita e escolhida a base musical, Marcel pediu ao público que soltasse palavras aleatórias... Em pouco tempo, já havia no telão algumas frases. O tÃtulo da música foi gritado por um padre que assistia tudo do camarote. Então, a música e a letra já estavam prontas. Só faltava encaixá-las. “Agora é a minha vez de deixar a minha marca na músicaâ€, disse Marcel. Os membros do Défaut começaram a tocar a quarta seqüência. Passados alguns instantes, Marcel empunhou o microfone e disse que estava pronto para cantar: “Na música, não vou mexer, nem na letra. Mas acho que vou precisar torcer um pouco a garganta.†Assim surgiu Ad libitum. Ficou mais do que evidente pela reação do público que ela superou suas expecativas. Todas as pessoas saÃram do show cantando o seu refrão. “Nunca tinha feito uma música antesâ€, disse um professor de piano. “Nem sozinho, nem em parceria... Senti-me realizado, é difÃcil explicar... Uma das notas de Ad libitum foi eu que disse... Também ajudei na letra.†No DVD, pode-se ver todo o processo de composição não apenas de Ad libitum, como também de Polycopie e de Esclavage. Todas foram compostas em não mais do que quinze minutos, cinco para a composição da base musical, cinco para a letra e cinco para a execução final com os ajustes da garganta. Também no DVD encontramos uma explicação menos lacônica da filosofia por trás do Informel: “O que faz uma música ser boa não é a sua origem e sim a sua composição interna, bem como sua afinidade com o gosto de quem a escuta, com o gosto do meio cultural onde ela surge... É possÃvel inventar argumentos para contra-balancear a crença generalizada de que uma música boa não pode ser composta coletivamente... Por exemplo, uma vez que a afinidade com o gosto do ouvinte é um dos ingredientes de uma música boa, quanto mais pessoas participarem da sua composição, melhor ela será... É possÃvel inventar, para cada um dos argumentos contra a composição coletiva, um argumento a seu favor...†CrÃticos do Méthode, há aos montes. Mas o fato é que quem não soubesse das diabruras do Défaut, jamais suspeitaria que Ad libitum, Polycopie e Esclavage foram compostas ao vivo e coletivamente. Seja como for, se o objetivo era diluir a fronteira entre os artistas e os espectadores, entre os geradores e os consumidores, não é certo que o Défaut conseguiu atingi-lo. Talvez agora o público acredite simplesmente estar diante de um espetáculo novo, onde o que se exibe não são mais músicas cuidadosamente trabalhadas e sim a excêntrica habilidade de compor ao vivo. Esbanjando perÃcia na arte um tanto circense de transformar qualquer coisa em música, é possÃvel que o Défaut esteja não superando e sim aprofundando o abismo tradicional entre o palco e o público. Considerações teóricas à parte, a qualidade do Informel, incluindo suas últimas faixas, está fora de questão.
Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!