A história cultural de São Carlos (SP) tem uma forte relação com o cinema. E um dos personagens envolvido não se satisfez em apenas assistir, quis ser parte dela produzindo os próprios filmes. Com poucos recursos e sem formação na área, José de Oliveira, o Zé Pintor, produziu entre as décadas de 1960 e 1970 três médias metragens até pouco tempo desconhecidos para os novos admiradores da sétima arte.
Nascido em São Carlos no ano de 1930, Zé Pintor teve seu primeiro contato com o cinema ainda na infância, quando sua irmã o levava para assistir as sessões. Na época eram exibidos muitos filmes norte-americanos de bang-bang. Ele conta que ficava triste quando o “mocinho†do filme morria. “Eu achava que eles morriam de verdade e me assustava quando via o ator atuando em outro filme.â€, lembra o cineasta.
Aos doze anos Zé começa a trabalhar na limpeza do Cine São José. O pagamento era um ingresso para as sessões e algumas gorjetas. Vivenciando o dia a dia a dia do cinema se interessa pelo ofÃcio que lhe valeu o apelido. Os cartazes e letreiros que anunciavam os filmes eram pintados à mão e ele vivia observando o pintor a fim de aprender a técnica. “Foi o zelador do cinema que comprou tintas e pincéis para eu praticarâ€, recorda. Sua habilidade fez com que rapidamente passasse a exercer a profissão de pintor.
Para completar os rendimentos mensais, Zé começa a fazer filmagens de eventos na cidade como casamentos, formaturas e desfiles. Mas não estava contente. Queria mesmo era produzir o seu próprio filme. “Na época era muito difÃcil produzir um filme, principalmente no interior, os equipamentos eram caros e não havia patrocÃniosâ€, conta. Com alguma economia, compra sua primeira filmadora: uma câmera usada da marca Keystone que funcionava a corda. “E ainda funciona muito bem!â€, orgulha-se. “Hoje é uma relÃquia, já me ofereceram um bom valor por ela, mas eu não vendo não!â€, afirma com entusiasmo.
SURGE O CINEASTA
Com “uma câmera na mão e várias idéias na cabeçaâ€, Zé roteiriza seu primeiro filme, um western – Uma voz na consciência - ao estilo dos quais costumava assistir na infância. Para atuar, contou com o apoio de alguns amigos, - na época estudantes e atores amadores - e começaram as filmagens. “Ninguém sabia como era o processo de produção de um filme, mas era muito divertidoâ€, lembra Américo Talarico Jr, um dos atores. “Todos contribuÃam com o roteiro e a criação das personagens.â€
As gravações, que aconteciam geralmente aos finais de semana, tornavam o tempo de produção do filme demorado. Também havia o problema de limitação do equipamento que permitia a gravação em seqüências muito curtas. “A cada 15 segundos tÃnhamos que parar para dar corda na câmera,†explica Zé. Com o filme finalizado, apenas depois que os negativos eram revelados, tinha inÃcio a edição “feita de maneira artesanalâ€.
Já com alguma experiência, começa a produzir seu segundo filme – “Sublime fascinação†– um romance permeado pelo sobrenatural. Conta a história de uma garota que sofre de uma grave doença e começa a receber a vista do espÃrito de um rapaz pelo qual se apaixona. “Neste filme os atores eram muito jovensâ€, lembra. “E mesmo sem nunca terem atuado, desempenharam muito bem o papelâ€, conta Zé.
Um dos aspectos interessantes dos seus filmes são os locais onde eram realizadas as gravações. SÃtios, casarões abandonados, praças e até mesmo no cemitério. Qualquer lugar se tornava cenário para suas histórias. Para o professor do Departamento de Artes e Comunicação (DAC) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), João Carlos Massarolo, os filmes de Zé Pintor têm uma importância histórica ao registrar o cotidiano do municÃpio. “Em suas obras podemos observar o momento de transição dos costumes rurais para o urbano em São Carlosâ€, comenta Massarolo.
Seu último filme - “A testemunha oculta†– produzido em 1969 é um suspense policial ao estilo de Alfred Hitchcock, que apresenta amadurecimento técnico em relação à linguagem e edição. Mas quando questionado se buscou inspiração no cineasta inglês, brinca: “Na verdade foi Hitchcock que veio ao Brasil, e copiou minha idéiaâ€. Um detalhe curioso é que, apesar se seus filmes serem “mudosâ€, Zé escrevia o roteiro com as falas dos personagens e trilha sonora. “Na época a sonorização era gravada separada da imagem e eu não tinha o equipamento para gravar o somâ€, explica.
Mesmo realizando três produções completas e alguns outros trabalhos que não foram finalizados por falta de recursos, Zé Pintor é um artista que passou despercebido pela sua época. Com poucas oportunidades e lugares para exibição, seus filmes foram assistidos apenas em pequenos grupos de amigos. “Infelizmente o reconhecimento pelo trabalho do Zé Pintor demorou a acontecerâ€, lamenta Massarolo. “Ele pode ser considerado um dos pioneiros do cinema na região assim como Humberto Mauro foi para o cinema brasileiroâ€.
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