Antonio João de Jesus
Fala-se muito na linha do tempo, expressão repetida constantemente na literatura universal e vista como coisa do passado ou cientificista. A materialidade dessa linha do tempo, tal qual ocorre com a linha do Equador, imaterial, mas geograficamente presente, passa a existir no consciente e no inconsciente de qualquer pessoa que mergulha na cosmurgia de um povo, principalmente em se tratando de povo indígena.
Rebuscando meus pertences mais pessoais, como a rede em que dormia, o velho lençol de algodoim, minhas roupas e o caderno de anotação, percebo neles as cores dessa linha do tempo, cor da vida, cor da morte, da vida inicial e da morte contínua, pois esses pertences, até hoje guardados, estão todos besuntados do pigmento vermelho do urucu e do negro do pó do carvão, que marca varias situações vividas com os povos Bororo e Umutina, situações de ver e viver, nascer e morrer.
Na minha imaginária paleta das cores do urucu, jenipapo e do carvão, rememoro fatos reais e literatos ocorridos no universo Chaco-Pantanal, lócus privilegiado da criação de fatos históricos que enobrecem muitos povos. Povos, entre muitos outros, que viveram e vivem nessa linha do tempo, dessas águas irrequietas e nas suas circunscrições.
Vários povos desse Chaco-Pantanal, provavelmente também os Bororo e os Umutina, tiveram contatos presente ou visual com os espanhóis depois de 1515, quando estes adentraram no Rio da Prata e posteriormente subiram o Rio Paraguai. Essas penetrações continuaram nos anos seguintes, onde esse mundo das águas passa a ser também conhecido como Mar dos Xarayés. No vaivém de povos diferentes, bem armados e guiados pelos temidos índios Guarani (que significa guerreiros), possibilitou um domínio quase homogêneo do Chaco-Pantanal pelos espanhóis. Começando o facetamento de diversas nações indígenas habitantes dessa região.
Mas, a história das Bandeiras Paulistas mudou esse “panorama espanholado”. Bastando revermos as aventuras de Antonio Raposo Tavares que sintetizaremos as aventuras do desbravamento de novas terras, prea de índios, descoberta de minas e muito sangue. Foi esse bandeirante quem abriu as rotas do pantanal para seus predecessores luso-brasileiro. Raposo Tavares tencionava aprisionar índios e chegar às minas de prata espanholas dos Andes. Seguindo seus passos, outros bandeirantes trilharam o pantanal. Os primeiros contatos com o povo Bororo ocorreram no século XVII, quando espanhóis e jesuítas, estes, vindos de Belém, adentraram a região da bacia do rio Araguaia e seguiu pelos rios Taquari e São Lourenço, em direção ao rio Paraguai (WÜST, 1990: 91, ENAWURÉU, 1986:7).
Entre 1673 e 1682, Manoel de Campos Bicudo acompanhado do seu filho Antonio Pires de Campos de 14 anos, subiram as cabeceiras do rio Cuiabá, quando defrontaram com a Mina dos Martírios no rio Araguaia, próximo de Xambioá/TO. Em 1718, Antonio Pires de Campos, retorna, sobe o rio Cuiabá, ataca e destrói a aldeia Coxiponé, povo Bororo da foz do rio Coxipó com o Cuiabá, hoje, Vila de São Gonçalo Beira Rio, fazendo muitos prisioneiros. Coube então a Pires de Campos, a honra de ser o primeiro a abrir esse caminho fluvial do Cuiabá para a história do Brasil e, também, de ter dado nome a esses rios.
Em 1719, Pascoal Moreira Cabral, seguindo as informações de Pires de Campos chegou à região do Coxipó, subiu esse rio e entre os rios Peixe e Mutuca, foi derrotado pelos Coxipones, onde morrendo “oito homens brancos fora negros” (Termo de 8 de abril). No retorno para a barra do Coxipó, encontra ouro e muda o eixo da história da região. No dia 8 de abril de 1719, lavra a Ata de Descoberta da Mina do Cuiabá, conhecida também como a Ata da Fundação de Cuiabá (JESUS, 2005).
OS BORORO
Os Bororo, povo indígena classificado no tronco lingüístico Macro-Jê, autodenomina BOE. Ocupou um território de aproximadamente 400 mil/Km², indo do triângulo mineiro à Bolívia, no sentido Leste-Oeste e dos Chapadões dos Parecis à Coxim, no sentido Norte-Sul.
Os Bororo foram divididos etnologicamente em dois grandes grupos: os Ocidentais, que compreendiam os Bororo da Campanha, Aravira e os Cabaçais, habitantes da região do médio rio Paraguai que hoje estão reduzidos a algumas famílias dispersas pelas barrancas dos rios Paraguai, Jauru e Cabaçal. Os Orientais, habitam as regiões dos atuais municípios de Barão de Melgaço, Santo Antônio do Leverger, Rondonópolis, Jarudóre e Barra do Garças. Os Umutina pertencente ao grupo Bororo, sendo ela uma ramificação dessa grande nação indígena.
A recriação dos homens para os Bororo:
Um índio ofendeu o espírito Jakoméa Pó e este furioso ordenou que uma grande inundação destruísse a terra com todos seus viventes. Merire Póro, único sobrevivente humano do dilúvio, refugiou-se no alto do morro Toroári ou Atruári (morro do Santo Antonio, localizado nas proximidades de Cuiabá). Dali aqueceu pedras e atirou-as nas águas enfurecidas, provocando assim sua evaporação. Merire Poro vendo que todos humanos sucumbiram, com exceção dele e de uma fêmea de uma veada Guaçuetê (Mazama americana) com a qual manteve relações sexuais e tiveram inicialmente filhos metade homem e metade bichos e só depois de várias reproduções que nasceram Bororo perfeitos e ocuparam o mundo, tendo como ponto irradiador a região central do continente Sul Americano, que é Cuiabá.
OS UMUTINA
Harald Schultz, pesquisador que documentou os vinte e três Umutina independentes, da aldeia Cachoeirinha na margem direita do médio Rio Paraguai, assevera que os mitos reformuladores estabelecem a posição territorial dos Umutina na época do contato com os civilizados, tendo o rio Paraguai como referência principal. Ricardo Franco de Almeida e Serra em 1797, atesta sua presença nas margens dos rios Cabaçal e Sepotuba.
O grupo Umutina, a princípio era chamado de Barbados pelos brasileiros por possuírem ralas barbas, que consideravam sinal de orgulho. Há muitas controvérsias na nominação atribuída aos Umutina; segundo Kalervo Oberg é “Bolorié” que quer dizer homens antigos, no entanto Max Schimidt e Harald Schultz os denominaram de Umotina e Umutina, respectivamente, ambos sem significado na língua do grupo. Kubodonepá, afirmou ao técnico do Museu Rondon, Antonio João de Jesus, (Técnico Indigenista e na época em que era Chefe do P.I. Umutina-FUNAI) que se identificavam como “Balotiponé”, sendo Umutina uma nomeação atribuída pelos Paresí.
Atualmente os Umutina estão confinados em uma estreita faixa de terra que se estende entre os rios Paraguai e Bugres, até as proximidades do município de Alto Paraguai. A pacificação definitiva deu-se em 1911, com o contato realizado pelo Coronel Rondon entre os rios Paraguai e Bugres. A Comissão Rondon tinha como finalidade estender um ramal das linhas telegráficas até a vila de Barra dos Bugres, cuja ocupação iniciou-se em 1878, e sua atividade principal era a extração da poaia-ipecacuanha (Cephaelis ipecacuanha), seringa (Hevea brasileira) e madeiras nobres.
Apesar do contato pacífico engendrado por Rondon e de ter determinado ao Governo do Estado que demarcasse aquelas terras para os Umutina, garantindo-lhes assim a sua posse, a dissimulada guerra de extermínio ainda sucedia por parte dos extrativistas que infestavam essa região. Também, as doenças como a gripe, o sarampo, a tuberculose e a bronco-pneumonia, contribuíram para a depopulação Umutina, como a de sarampo de 1920, matando 1/3 da população e o surto de coqueluche e tuberculose das décadas de 40 e 50, que praticamente arrasou a aldeia independente de Cachoeirinha, no médio rio Paraguai. Antes do contato, segundo Kupodonepá, informante de Schultz, a população Umutina era estimada em mais de 1000 índios. Em 1911, o SPI encontrou aproximadamente 300 pessoas, e em 1945, Schultz encontrou 23 Umutina independentes e uns 50 índios órfãos que foram adotados pelo SPI. Em 1980, Antonio João de Jesus, recenseou-os e encontrou 75 pessoas que se identificam como Umutina, sendo 36 Umutina e 39 mestiços de Umutina com outros grupos étnicos que mora em seu território, como os Paresí, Bakairi, Nambikwara e Kayabí, levados para ali pelo SPI, que desejava garantir a posse da terra e a perpetuação dos Umutina.
A aldeia dos Umutina, normalmente localizava-se em lugares elevados, com intuito de evitar as cheias que ocorriam no período das chuvas. Em 1924, segundo Max Schimidt a casa era redonda, no entanto Kalervo Oberg e os Umutina afirmam que nunca tiveram esse tipo de casa, e que a construção de então (1943-1945) era influenciada pelos neo-brasileiros, cuja característica é; “... um rancho de duas águas, com os lados abertos, consistindo de quatro ou mais postes externos e vigas dispostas em forma quadrangular”. (Schultz 1961-111) Nesta casa não havia divisórias e o número de famílias era contado pelo número de fogueiras no chão.
A agricultura era a atividade principal desse povo, inicialmente preparada com machado-de-pedra, o tacape-espada, o pau-de-cavouco e após o contato substituído por machado de aço, facão e enxada. Consistia no plantio de milho e da mandioca como atividade principal. A pesca, feita com arco e flecha era precedida de cantos propiciatórios invocando o espírito protetor, as mulheres preparavam os peixes que eram consumidos com mingau e pimenta. As caçadas e a coleta de mel, frutos, cogumelos, resinas e ervas medicinal complementavam subsistência do grupo ( Schultz 1961). Hoje, dedicam-se a criação de gado, ao trabalho nas fazendas da região, a venda do pescado e aos projetos agrícolas da FUNAI.
Atualmente, devido à reeducação proposta pelo SPI, iniciado na década de 40 do século XX, de enquadrar o índio na sociedade nacional, as antigas construções foram substituídas por casas de alvenarias. A dizimação dos velhos possibilitou esse rearranjo, pois, fez perder o saber Umutina, sobrando aos seus remanescentes pouca opção de escolha.
A Criação do Homem para os Umutina:
“Primeiro não tinha povo e Haipukú andava triste e sozinho. Ele foi pensando na vida, foi inventar e experimentar juntar fruta macho e fêmea da bacaba do campo. Foi juntando, juntando, emendando até ter dois pés de comprimento, aí deixou de lado. Quando chegou de noite ouviu conversa que as frutas viraram gente. Ele ficou satisfeito com os companheiros.Depois,experimentou juntar fruta de figueira de folha larga e botou debaixo da esteira, De noite ouviu conversa de gente. Foi ver que virou gente outra vez e ficou satisfeito. Depois de algum tempo achou que era pouco e experimentou juntar fruta de bacaba do mato. Juntou até um palmo de comprimento e saíram tudo gente de cabelo comprido, dois homens e duas mulheres. Experimentou com mel de Tatá e também saiu um casal, com a cabeça mais pelada. Quando já tinha bastante povo, criou barriga de perna por dois lados. Haipukú ficou apurado com a dor de criança, procurou um pé de figueira, aí racharam as duas pernas e nasceram quatro crianças : dois meninos e duas meninas. Da perna direita saíram dois Habusé, índio e índia, e do lado esquerdo saíram os pais dos civilizado, e logo passaram para o lado esquerdo do rio Paraguai e os índios para o lado direito. Mas não há notícias destes”. Índios ,parece que acabou!...”
(Schultz 1961:228)
A Origem dos rios para os Umutina
“...Certa vez, houve um grande desentendimento na aldeia Umutina, motivado pela raiva das mulheres contra seu maridos que tinha grandes moquéns de peixes as escondidas. Descobertos as mulheres se armaram e cada qual tinha a incumbência de executar seus maridos com as clavas-espadas. Todos foram eliminados. Uma das mulheres estava grávida e ficou decidido que a criança só viveria se fosse menina. Então, nasceu um menino. Assustada a mãe amarrou o penis da criança para trás e mostrou para todas as mulheres que no primeiro momento foram enganadas. Preocupada a mãe com medo de ser descoberta fugiu com seu filho, como a água do parto ainda escoria do seu ventre ela fez dessa água os rios da região, como o Kêpo(Sepotuba), o Balatipó (Tapirapoan),o Xôpo(Bugres), o Láripo(Paraguai), o Báinapo(Pari) e o Bárupo(Cuiabá), foi o único que as mulheres revoltadas por terem sido enganadas não conseguiram atravessá-lo, por ser muito largo”.
Kupodonepá, afirmou em 1975, a Antonio João de Jesus, que, provavelmente, essa índia casou com seu próprio filho e assim surgiu os Bororo da margem esquerda do rio Cuiabá.
Aspectos Sociais e Religiosos dos Umutina
Segundo Harald Schultz entre os Umutina só havia casais monógamos. Era incumbido aos pais decidirem o dia do casamento e o futuro esposo de suas filhas. Antes do casamento o pretendente devia caçar todos os dias, como se estivesse passando por uma prova. No cerimonial, o casal pintava o corpo inteiramente de urucu. Depois de casado, o homem não precisava caçar todos os dias. Assim, se consolida o rito de agregação definitiva, passando ambos os jovens a integrar um novo meio, o de casados.
No período da gestação, era aconselhado às “mulheres gestantes” praticarem exercícios. Além da movimentação, regras de alimentação deveriam ser adotadas pela futura mãe, como não comer carne ou peixe. O recém-nascido era adornado com penas e seu corpo todo untado com urucu misturado com azeite de coco. Logo em seguida furavam as orelhas. Ao atingir a puberdade faziam uma pequena festa, era o momento que o menino usaria o fecho peniano, confeccionado com uma tira de palha de buriti. O pai escolhia alguém para colocar pela primeira vez o artefato. Os convidados levavam feixes de flechas e homens e mulheres cantavam. Consumiam nessa festa: beiju, peixe, caça e bebida de milho. Em caso de morte, os homens ou mulheres mortos eram pintados de urucum, sendo enrolados em esteiras, levando alguns de seus pertences, principalmente as armas para os homens e o pau-de-cavar para as mulheres. Os demais pertences eram destruídos. O choro ritual, a autoflagelação das mulheres é expressão obrigatória de sentimentos. Os cantos dos Umutina exortavam os espíritos dos antepassados. Havia dançarinos que representava o espírito, estes eram pintados pelo dono da festa, e assim mascarados gesticulavam e imitavam vozes do espírito encarnado. (Schultz, 1961/1962)
OS HERDEIROS DO NADA
A história da sobrevivência Umutina podemos salientar a bravura dos 23 Umutina da aldeia Cachoeirinha que não capitularam as tentações de uma vida de branco na sede do posto do SPI, que os modelaria num cidadão em comunhão com a sociedade nacional e hábil nas lidas dos ofícios como os da carpintaria, sapataria, construção de casas e currais ou no manejo da agropecuária. Resistiram a essas tentações e diante da invasão do seu território, tanto que os não índios os nomearam de hostil. No entanto, esse agir não é sinal de hostilidade, mas sim de sobrevivência, de respeito à terra de descanso dos seus antepassados. Essa determinação e a extrema belicosidade com que defendiam seus espaços justificaram o seguinte comentário do Coronel Rondon: “Se alguma tribo existiu que parecesse justificar a teoria antigamente apregoada de se classificar as nações silvícolas em reductíveis e irreductíveis, e devendo estas ser sistematicamente perseguidas e exterminadas, certamente seria a destes que habitam a mata da poaia”. (Rondon, 1915:365). Os índios do Posto Fraternidade Indígena os “redimidos” aprenderam também a denominá-los de “brabos”, porque eles não se encantaram com o paraíso proposto pelo SPI. No entanto esses 23 independentes, “herdeiros do nada” passaram para a história, como símbolo épico da resistência de um povo indígena, contra toda prepotência do povo civilizado. Antonio João de Jesus diz que Umutina não é hostil, Umutina na ânsia de sobreviverem incorporaram a própria mata, é vegetal, então, defender esse universo verde, é defender a vida.
Antonio João de Jesus, num de seus comentários, baseado nas descrições de velhos Umutina e Paresi do Posto Indígena Umutina, com quem conviveu, assim sintetiza um dos últimos momentos desse povo, povo que rasgou sua linha do tempo:
“... Determinados, esses “brabos” desciam o rio, nus, com o corpo enegrecido de jenipapo e com couros de onças adornando as costas. Arcos retesados, flechas em riste, músculos rígidos e pés direitos batendo firmes no chão. Gritos, esturros e medo. Redimidos e redentores amedrontados. Brabos, irreductíveis, Barbados. Umutina independentes. Sarampo, coqueluche e morte.
Kupodonepá, Amachipá. Boroponepá, Ariabô, Apodonepá e Kakichinepá, famílias Umutina. Não dançam mais os rituais dos mortos, não fazem mais as festas do milho, não falam mais o seu idioma e não carregam mais as temidas clavas-espadas. Herdeiros silenciosos, dignos e presentes. “Herdeiros de tudo, ou talvez herdeiros do nada, mas Barbados, Umutina...”
“Mistikané, mistikané?(“...e vocês quem são”),murmura Kazakaru Boroponepá, uma das últimas remanescentes dos vinte e três independentes e trazida ainda menina para a sede do Posto Fraternidade Indígena.
Defesa e ataque, determinação e resistência, era a linha do tempo que se esvaía para os Umutina na dura figura de Kazacaru Boroponepá, que laconicamente afirmou: “acabou as cidades das mil casas, tantas, que não tenho dedos para mostrar”. No vazio da noite, da noite sem lua, tal qual ocorria com as crianças no tempo das velhas aldeias Balotiponé, que ao som das buzinas de rabo de tatu-canastra, tocada pelos guerreiros do seu povo, deixavam o calor da fogueira das casas e sorrateiramente fundiam-se as grandes arvores da floresta para sobreviverem a mais um ataque dos brancos. Nessa outra noite sem lua, noite escura da saudade, Kazacaru, velha-menina, esquivando-se dos olhares da sua nova aldeia de alvenaria, da sua estranha aldeia do Posto da FUNAI, rasgando novamente a linha do tempo que esvaía, pulava nos meus braços e sussurrava
“tô cô sodade de maloca, sodade de passa urucum, de jenipapo. Quero cantá e chorá de sodade”. Corpo enegrecido com o sumo de jenipapo, morte, choro e órfãos. Rituais da morte, onças abatidas, lágrimas e sangue emoldurando as águas do Rio Paraguai e do Rio dos Bugres, líquidos que escorriam dos corpos Umutina, produzidos pelos furos das balas das carabinas e encarnavam ainda mais as pintas avermelhadas das piraputangas.
Chamados continuadamente de “brabos” por resistirem durante décadas às agressões do homem branco que cobiçavam suas riquíssimas terras, brabos, os Umutina?
Nessa terra umidificada por águas e lágrimas, estão os Umutina, escorraçados das margens de muitos rios, encontraram na mesopotâmia dos rios Bugres e Paraguai refúgio quase perfeito. Perfeito e último. Mas, a poaia e a seringa, ouro verde dos idos de 1900, levou para essa região mais extrativista dessas preciosidades. Com isso, novas atribulações permeou a vida desses índios. Determinados, resistiram a essas invasões a seus últimos redutos.
Mas, guerra e paz são incertezas. Certeza é o contato desregrado que trouxeram a esse povo as doenças e a morte, morte pacifica da linha do tempo que inflexível dizimou os últimos 23 independentes Umutina. Os vinte e três sobreviventes que tornou épica a história desse povo. Reclusos por vontade própria na aldeia Cachoeirinha, puderam manter seus costumes intactos e fugindo, assim, do avassalador contato com o Serviço de Proteção ao Índio (SPI). Mas, vez por outra, visitavam esse Posto criado para assisti-los, onde dezenas de seus órfãos foram alojados e educados pelo governo e conviverem com índios redimidos e com outros povos ali alocados para garantirem essas terras aos Umutina. A inexorável linha do tempo, aos poucos foi com a coqueluche, sarampo e as gripes eliminando esses resistentes das muitas guerras, e impotentes contra os microscópicos e virais inimigos.
Ouçam, bam, bam, bam, são tiros? Não é mais a voz das carabinas, e sim do grande sino de cobre que chamavam os índios do Posto Fraternidade para o almoço. Comida farta, produzida por eles, por outros povos indígenas e pelos servidores brancos do SPI. Na fila, Kupodonepá, Amachipá, Boroponepá, Ariabô, Apodonepá, Apicoré Amajunepa e Kazacaru, sobreviventes da linha do tempo, do tempo Umutina.
Umutina que não dançam mais o ritual dos mortos, não fazem mais a festa do milho, não fala mais o seu idioma e não carregam mais as suas temidas clavas-espadas. Herdeiros silenciosos, dignos e presentes. Herdeiros de tudo, ou talvez herdeiros do nada, mas Barbados, Umutina.
A linha do tempo...
Ouçam. Esses brabos, com o corpo enegrecido com o sumo do fruto do jenipapo e couros de onças adornando suas costas, os arcos retesados, as flechas em ristes, os músculos rígidos e os pés direito batendo duro no chão. Esturros, cantos ecoando, acercam-se do publico. Mais gritos, mais esturros e medo. Gritos de medo? Pavor e morte? Não, são aplausos, muitos aplausos calorosos. Susto sim, susto quando a corda estala nos arcos retesados e as flechas são firmemente retidas nos dedos dos jovens Umutina quando encenam a “saudação guerreira”. Brabos. Irreductíveis Barbados. Umutina independentes. Jovens redimidos contam a história do povo Umutina.
FILHOS DE HAIPUKU é o nome desta nova linha do tempo, imaterial, culturalmente e historicamente vivificado pela ação desses jovens guerreiros. Estes descendentes dos irreductíveis Barbados, não são mais herdeiros silenciosos, são herdeiros dignos e presentes. Umutina vivificados que nos presenteia com as múltiplas facetas da cosmurgia do seu povo.
Merireu:
Agradeço pela visão que traz a nós, do universo pessoal e coletivo, do SER índio. Estou linkando seu artigo, sim?
@braços, sucessos!
Roberto Luis.
Olá, companheiro...
Fico feliz pelo seu interesse, pois, depois de muita cobrança resolvi fazer público vivências e fatos vivido com diversos povos indígenas. Sugiro dar uma passado no:
overmundo.com.br/overblog/bororo-quando-o-aroe-maiwu-danca-para-os-...
Excelente contribuição Merireu. Merecimento único em poder conviver com estas nações indígenas.
Saúdee Paz. jbconrado
Rebuscando meus pertences mais pessoais, como a rede em que dormia, o velho lençol de algodoim, minhas roupas e o caderno de anotação, percebo neles as cores dessa linha do tempo, cor da vida, cor da morte, da vida inicial e da morte contínua, pois esses pertences, até hoje guardados, estão todos besuntados do pigmento vermelho do urucu e do negro do pó do carvão, que marca varias situações vividas com os povos Bororo e Umutina, situações de ver e viver, nascer e morrer.
Merireu, bom dia: estou aqui, no cerrado/DF, e nesta manhã eu não poderia deixar de vir aqui, prestigiar o seu textos, a sua memória, o seu imaginário, a poesia que perpassa a memória que você guarda dos Bororo e dos Mutina; tenho amigos nessas etnias, o Marcio que é cantor com um vozeirão que lembra o Zé Ramalho; tem os mutina, alguns artistas do grafismo que conheci há três anos no Encontro de Escritores indígenas.
Merireu, parabens pela história-memoria que você nos oferece nesta semana em que muitos desconhecem a verdadeira história dos povos indígenas.
Paz em Ñanderu,
Graça Graúna
Ufá...
Graça Grauna. Sou cuiabano e nos conhecemos nesse evento da SEC/MT, naquela praça central de Cuiabá, ao lado de nossa catedral centenária, no jardim, naquelas tendas, onde constantemente repetia o "Rituais Bororo, do Thomaz Reis da Comissão Rondon. Só que acho que dei meu nome em portugues para você que é Antonio João, em Bororo, sou Merireu Merikajujeu. O Marcio é meu vizinho e amigo. A "Linha do Tempo" é assim, fecha e se rompe, na praça nos conhecemos, agora voc~e rasgou a linha desse tempo da praça de Cuiabá. Todos meus textos, estavam num bau dentro de minha memória, amigos me cobram contantemente: Merireu, esse mundo não é só seu, o que você viveu com eles não tem em livros de antropologia, tira e mostra suas histórias e vivências. Acho que, com 62 anos, resolvi fazer minhas memórias sair de mim. Graça Grauna, que bom! Vou falar pra minha filha Naine Terena, que tá ai em São Paulo fazendo doutorado. Fico feliz e ter de você a maior e melhor escritora indígena do Brasil. A melhor é pro Daniel Mundurucu não ficar enciumado(rsos).
Um abraço cuiabano salpicado de nonogo(urucu) Bororo, o mais vermelho do mundo(rsos)
Antonio João ou Merireu.
Merireu,
Parabéns!!! Seja bem vindo!!
Depois da Graça Graúna, do Daniel Munduruku e agora você. Que venham mais escritores amerindios descendentes.
Abraço,
Merireu, meu irmão de luta: logo vi que o teu rosto era, é e será sempre familiar. Fico muito feliz com as suas boas palavras e te digo, companheiro. Continue trilahndo pela escrita poius tua escrita é linda demais. Estarei em São Paulo na primeira semana de maio, na defesa do doutorado do Daniel Munduruku. Quem sabe eu encontre a Naine por lá. Paz em Ñamnderu. Saudades da terra dos Bororo!!!
graça grauna · Recife, PE 22/4/2010 19:07Ler seu texto nos faz ter saudade daquilo que não vivemos. Materializar o tempo é algo muito difícil, poucas pessoas conseguem dar forma e cor ao tempo. Somente um Bari para ter esta capacidade. É realmente um privilégio conviver (no Ritude Enári do Museu Rondon/ASAMUR) com você e os Umutina vivificados.
Arali Dalsico · Cuiabá, MT 25/4/2010 10:07
É assim, nosso vai-e-vem da vida nos limita aos nossos umbigos, só os diferentes, loucos, poetas, torcidas do Flamendo/Corinthias, índios, quilombolas, hipies rompem essa tenue linha do tempo. Mas ela está sempre presente na nossa vida. Como passar ou não passar num vestibular, hoje para tantos fatos corriqueiro, para outros trágicos acontecimentos. No Ritude Enári -A Oficina do Saber, onde a ASAMUR deu aos índios Umutina o "Tempo" deles, ali foram os senhores das palavras, palavras sempre escritas por outros. Vimos milhares de crianças extasiadas com os jovens Umutinas exuberando conhecimento ambiental, artístico, onde geometrizava nos vasos cerâmicos e placas rigidas de madeira o tempo, o tempo Umutina. Por fim dançar com as crianças, adultos, professores e comunidade do entorno das escolas. No estalar da corda do arco e no esturro da onça pintada que emitiam no fim de cada atividade do Ritude Enári, o Tempo Umutina proposto pela ASAMUR, não era mais dos balaços das carabinas de séculos passados. As crianças provaram isso e fraternidade foi o fato desse tempo.
Abração Presidente da ASAMUR (Associação de Amigos do Museu Rondon/UFMT) e obrigado pela postagem e pelo Ritude Enári.
Saudações.
Moro em Coxim, palco de lutas entre Bororo, paulistas e Caiapós (num determinado momento da linha do tempo). Quem me contava era meu amigo Henrique Spengler, que dedicou sua vida ao resgate da memória Mabya-Guaicuru. Depois dele, e de me apaixonar pela cultura nativo-americana, me dediquei a reescrever uma possível linha periódica dos Mbayá-Guaicuru até se tornarem Kadiweú, hoje viventes em uma reserva de mais de 500 mil ha em Porto Murtinho, região Sudoeste de MS.
Conhecidos como índios cavaleiros eram guerreiros equestres cuja civilização não consegui exterminar a contento. Ainda falam a lingua, mantém alguns costumes e estão reiventando sua História.
Agradeço pela oportunidade de conhecer mais um pedaço da História de resistência e bravura dos verdadeiros homens desta terra.
Abraços Guaicuru!
Olá, Carlitos...
Que coincidência, estava revirando meu bau do tempo e vi uns textos que escrevi sobre a Reserva Kadiwéu (T.I. Kadiwéu) onde vivi de 1973/1975, com técnico Indigenista e administrador do P.I. São João/FUNAI. Essa área na R. Kadiwéu, era destinada aos Aruak, Terena e Kinikináu. A Aldeia Tomazia ao Kadiwéu central, Dois Corregos viviam os Terena e Kinikináu, todas com jurisdição administrativa do PI. São João. Fiz o curso de Técnico em Indigenismo em 1972 em BSB pela FUNAI que queria subestituir todos os servidores do extinto SPI.
Foi momentos muito interessante e a convivência com esses povos, que de uma forma ou de outro nos remete a história de Cuiabá, da Guerra do Paraguai, do Marechal Rondon e de muitas outras passagens dos cavaleiros Mbayá Guaikuru ( em Guarani: Mbayá= ardilosos e Guaikuru=nômades). Foi muito bom saber do desejo do Henrique Spengler estudar os Guaikuru. De fato Coxim (Cocíi para os Bororo+terra dos cajus silvestres, deve ter ainda co cerrado das redondezas. Abração do Merireu
Antonio João
Que bom vê-lo nesta bela produção. Você é um Bororo de grande sabedoria. Obrigada por nos brindar com suas experiencias, memórias e suas narrativas poéticas. Merireu seus projetos no museu Rondon são maravilhosos, você e Arali fazem o melhor pela ASAMUR mesmo quando o tempo se mostra adverso. Os Umutina se beneficiam com o registro de suas memórias miticas e sua história, além da participação no "Ritude Enári -A Oficina do Saber'.
Que bom que escreveu ´sobre os Bororo, suas memórias no rio São Lourenço, são aguardadas com ansiedade, bem como a composição da coleção Bororo no Museu Rondon. Estas que referenciam verdades escondidas nas dobras do tempo e esperam ser trazidas a tona para o conhecimento de gente como nós, que embora não-indio se sentem contaminados pelo cheiro e a cor do urucum, pela beleza das plumárias, pela ansia de saber mais e mais sobre a constituição clãnica e sub-clãnica deste povo, do qual nos apropriamos de seu território mas não os conhecemos. Um abraço, meu amigo
Jocenaide M. Rossetto - UFMT/CUR
Meu irmão,
Publiquei um livro entitulado Porto Murtinho História e Cultura: Os guaicuru e o ciclo da erva mate, em parceria com meu finado amigo.
Na primeira metade do livro falo de alguns dos povos nativos que habitavam a região onde hoje é o município de Porto Murtinho. Do século 16 à contemporaneidade retrato um cenário interessante, inclusive com relatos e fotos da Aldeia São João e Tomásia (por ocasião de nossa passagem expedicionária por lá). Dentro da reserva muita coisa aconteceu... Visite meu livro, reveja suas lembranças e depois vamos conversar mais, traçando um paralelo entre passado e e presente...
Meu livro está em formato PDF publicado gratuitamente na internet, aqui: http://www.guaicurumurtinho.com/frameset.html
Acesse e (com um pouquinho de paciência) baixe os arquivos. Leia o que julgar interessante e vamos conversar depois, legal?
Este meu trabalho está parado e quem sabe vc não me dá uma idéia de continuidade?
Abraços Guaicuru!!!
estou encantada com as historias cuja ambiçao do homem tingiu de sangue nossos rios e detonou tanto sonho de liberdade. Encantada mais ainda pelas lendas que vc transcreve de forma tao rica.
que prazer te ler, meu caro.
Obrigada!!!
bjssss;
Claudia, muito atrasado meus comentários, mas nossa "linha do tempo" espero não ser marcado pelos anos cristão, e sim apenas como uma tênue referência de datação, ou uma sinalização das confusas linhas do tempo de centenas de povos indígenas que habitam este continente Sul Americano. Hoje felizmente as águas não são mais tingidas com o sangue indígena, mas seu dia-a-dia serão rompidas pelas dezenas de hidroelétricas que serão construídas nos rios que correm pelas terras indígenas, como a de Belo Monte, que está deixando Raoni, esse maravilhoso "ser humano" entristecido e irritado. No 2º FLINT(Um encontro de índios escritores realizado em Cuiabá) Raoni estava aborrecido. Inclusive êle fez uma visita no meu Sítio Toroári, localizado nas proximidades do Morro de Santo Antonio. Não bastou, pois Belo Monte acredito que sairá, mas naquele ínfimo de tempo êle ficou mais calmo. ver: http://www.facebook.com/profile.php?id=100000215709758&sk=info#!/profile.php?id=100000215709758&sk=wall
MERIREU · Cuiabá, MT 25/12/2011 16:18Para comentar é preciso estar logado no site. Fa�a primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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