Diretor e dramaturgo Jonathan Andrade

Diego Bresani
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Rodrigo Machado · Brasília, DF
4/10/2016 · 1 · 0
 

-> Como se dá o seu processo de criação dramatúgica?

Cada processo é muito distinto. Tem minhas produções individuais e aquelas que partilho com coletivos de teatro, outros artistas. Mas escrevo a partir de impulsos e fomes imediatas: aquilo que vi, ouvi, senti...imagens e falas que me perseguem ao longo do dia, do mês, do ano... narrativas e desejos que deixo germinarem em mim até que me exijam escrevê-los. Escrevo em post its todos os insights e colo nas paredes do meu quarto. Quando tudo se torna muito insustentável, eu vomito. Escrevo. Rumino muito o que desejo escrever. Mas a escrita é sempre um vômito, uma avalanche. A vida, o que alguém sentiu e me contou e me reverberou, eu guardo em um lugar muito sagrado em mim. Daí pulsa a minha criação: do que está vivo, e é afeto, e é possibilidade de encontro. A criação é um oceano de obsessões, clichês, recorrências, inspirações, desafios que a gente carrega, encontra na gente... Minha criação sempre parte do afeto e do cotidiano. Importa para mim falar da vida que a gente sente, vive. Tem os processos colaborativos, coletivos... mas todo processo de criação dramatúrgica comigo precisa me atravessar. Preciso morrer naquilo que escrevo. Sentir. É a minha ética. Escrevo desde os 14 anos. A minha relação com a escrita é uma relação vital. Matei um mundo que eu desacreditava para reinventar o mundo que eu gostaria de viver. Muito antes de acreditar no mundo e nas pessoas, eu acreditei no espaço-troca com o papel. A escrita foi meu primeiro espaço de liberdade, onde mantenho até hoje um espaço poético confessional. Falo de você e do outro, porque me esbarro igual. Quando entrei na UNB, passei a escrever peças de teatro também, algo que percebo como a contaminação das linguagens. O teatro pulsando na veia, e pedindo espaço também na materialidade da escrita: quando vi estava escrevendo peças de teatro. Isso já tem 15 anos de escrita e pesquisa em dramaturgia. Esse ano faço 20 anos como escritor. Uma curiosidade, Rodrigo, que tenho partilhado nas últimas oficinas e palestras sobre dramaturgia e processo de escrita, é que ainda guardo a primeira poesia que escrevi. Uma das provocações que faço para quem quer escrever: De onde nasce a fome da tua escrita? E a minha fome nasceu de uma poesia que era uma carta de suicídio. 20 anos depois olho para ela, papel rosado já bastante amarelado, e vejo que a arte foi o meu melhor suicídio. Gosto daquilo que se reinventa. A escrita e os meus processos dramaturgicos são todos reinvenções. Gosto de me reolhar, e de reescrever minhas certezas.


-> Existe algum gênero teatral ao qual você mais se identifica?

Todos me atravessam, mas o drama é o lugar onde meus impulsos mais se materializam. Há respiros, silêncios, delicadezas, irreverências, contrastes. Mas vejo que meu afeto criativo se inclina para um lugar do visceral, do humano se expondo, do desejo de novos mundos em si... uma inconformidade e uma beleza no que é, no que está.

-> Quais e/ou quem foram, ou são, suas fontes inspiradoras e que o levaram a essa entrega ao teatro?

As minhas maiores inspirações começam dentro de casa, na história de luta dos meus pais. Em uma família que sobrevive a fome de seus ancestrais e me dá inclusive oportunidade de ser artista. A vida me inspira. O cotidiano sempre foi a maior inspiração. As pessoas, as histórias. Eu coleciono histórias, eu coleciono afetos... isso me move absurdamente. O que é vivo me vivifica. Seja o que for: triste, ou belo. Desprezível ou estranho. Sedutor ou lúdico... No teatro tenho muitas inspirações. Tive muitos professores absurdamente incríveis, como Hugo Rodas e Silvia Davini. Dois artistas sagrados no meu terreiro de inspirações. Daí entram Plínio Marcos, Luigi Pirandello, Tennessee Williams, Ibsen, Alejandro Iñárritu, Almodóvar, Meryl Streep... são algumas fontes... alguns monstros viscerais que me tocam profundamente. Tem tantos outros... Cada um me convida em algum lugar. Gosto de respirar o que o outro tem. Seja perto ou longe de mim. Todo mundo tem um mundo inspirador. É uma questão de encontro.

-> Que energia e força você, como diretor, procura instigar nas atrizes e atores?

A força de fazer-se presente. E pensar presença em um palco é respirar exposição. O palco é o lugar daquilo que está, não pretende estar. É lugar do jogo, do encontro, do afeto. O afeto é o melhor efeito. E eu acredito que é preciso afetar-se para então afetar o outro. O palco é muito mais um lugar de escamar do que mascarar. O movimento em despir, escamar sensibilidades e expor-se enquanto tudo que se tem (medo, potencia, erro, luz, coragem, técnica etc).

-> Você trabalha com não atrizes bem como com atrizes e atores já de longa experiência nos palcos. Quais diferenças na condução dos processos de construção de um espetáculo, com estas características, você destacaria?

O processo de preparação do elenco revela as diferenças. Potências. Existe a potência que o ator sabe que tem, a que ela não sabe que tem e tem, e a que ele pode ter e não tem ainda. Essas forças criam o enfretamento necessário para o meu trabalho como diretor. Mas a diferença basicamente está na identidade de cada um, nas texturas e histórias dos corpos de cada um. No desejo e na disposição. Pisar em um palco é lançar-se. Trabalho com quem se lança.

-> Em quais produções você está envolvido no momento que quais funções está exercendo?

Atualmente, 4 produções. Autópsia, Poeira, Cinco Minutos e Tsunami (que está por vir e é um trabalho feito com o acompanhamento de uma escola em Planaltina. Os alunos vão acompanhar todo processo de criação do espetáculo... projeto incrível). Em todos assumo direção e encenação. Assino a dramaturgia final, cenário, figurino... Trabalho unindo essas frentes. Em 5 Minutos, divido a direção com a Rachel Mendes.

Fora outros projetos que virão! Inéditos... como direção do solo da Giselle Rodrigues: "Caipora quer dormir, uma peça infantil para adultos". rsrsrs

-> Quais projetos já estão em seus planos?

Solo da Giselle Rodrigues, Dois musicais (um mergulho na ancestralidade negra brasileira), Autópsia 3 e 4 (continuação do primeiro)... minhas publicações... Taaaaaantos planos! Tantos projetos... eu tenho muita fome de arte, Rodrigo...

-> Como têm sido as experiências de apresentar seus espetáculos fora de Brasília, como o "Autópsia"?

Incrível e emocionante. Um sonho. Como receptividade, estrutura, retorno de público e mídia... É um desafio e uma dificuldade grande circular com um projeto. Principalmente quando você tem uma equipe enorme. Mas foi incrível ter outros retornos e olhares para a obra. Outro impacto na divulgação e recepção do espetáculo. Por onde passou, Autópsia causou muito impacto. A obra do Plínio é muito atual, e o trabalho tem uma exposição e uma visceralidade muito orgânicas.

-> Como você vê e sente a atua produção teatral em Brasília?

Brasília é um terreiro de grandes artistas. Muita produção. Eu sinto que vivo um momento de reformulação e profissionalização do meu grupo de teatro. De pensar e repensar estratégias de sobrevivência da arte da gente, de difundir o trabalho, de seguir realizando... honrando esse legado de fazer arte e teatro. Um momento de querer desafios, de criar outras formas de fazer... um momento de muita provocação e fome.

-> Quem têm sido seus grandes parceiros de criação e produção teatral ao longo de sua carreira?

Tenho muitos parceiros. De experiências, idades e trajetórias muito distintas. Faço muitos trabalhos com muitas pessoas e grupos. Tão complicado dizer nomes, porque temos uma rede de cuidado e troca artística intensa. Onde um, mesmo que não esteja no projeto do outro, se alimenta e alimenta o outro. Olha, reflete, pensa, fala, provoca, contribui. É um privilégio contar com essa galera toda, de gerações tão distintas! Para não citar alguns, meu grupo de teatro (elenco e parceiros do Autópsia), Rodrigo Fischer, Diego Bresani, Cesar Lignelli, Dalton Camargos, Tatiana Carvalhedo, Moises Vasconcellos, Hugo Rodas, Ellen Oléria, Wellington Oliveira, Ana Flávia Garcia... elenco de POEIRA... muita gente, Rodrigo... você! ... Suuuuuper complicado... Márcia Regina, Giselle Rodrigues, Édi Oliveira, Yara de Cunto, Francis Wilker e o Teatro do Concreto... Uma rede imensa... Kenia Dias... Impossível decantar os nomes todos... rs

-> Dos seus projetos passados, quais você destacaria como mais marcantes e porquê?

Nunca pensei nisso... O que me vem agora é o primeiro trabalho de direção que apresentei em circuito comercial de Brasília, há 10 anos atrás. Banquei a produção, estreava oficialmente como Grupo Sutil Ato, cheio de idealismo... muitas provocações... o início de uma jornada de aprendizado. O palco é uma escola muito generosa quando a gente honra a fome dele. E a fome no teatro é uma divindade a ser cultuada sempre por quem pisa em palco. A entrega, os afetos... havia muito afeto e muita gana! Nisso eu não mudei. Tudo que faço tem paixão. Tem a minha entrega. Meu idealismo. Esse DNA é presente até hoje no Grupo Sutil ato e no meu trabalho como artista. Essa foi minha escola de teatro. Um Hugo Rodas, imenso, louco, gritando e pulsando entrega... uma divindade... que provoca a fome e a presença no sentido mais consciente e político que conheço. e daí... segue... O Grupo Sutil Ato faz nesse mês de setembro 10 anos... Um ano muito intenso e provocador para mim. Eu tinha 24 anos, agora 34 anos. Te escrever essas coisas já me emocionou... engraçado como o tempo do teatro, no teatro, é outro...


Uma coisa que não falei, mas hoje tem algo que influencia muito minha criação. Venho de Vigário Geral... subúrbio do subúrbio do subúrbio do Rio de Janeiro. E percebo que a minha ancestralidade suburbana, pobre, negra e gay tem sido impulsionadora de muitos mundos nos meus trabalhos. Digitais que vejo nas minhas obras, mas que hoje se desenham com mais potência. Isso rende um papo loooongo... mas não menos importante quando me deparo com ter feito um curso de teatro sem nem conhecer teatro, e ser um dos únicos alunos negros... etc... Honro profundamente isso, principalmente em Brasília, cidade que amo viver, mas que faz parte de outro contexto e realidade humano (social, política, econômica...)




“Poeiraâ€, Espetáculo com dramaturgia e texto inspirados em cartas e poemas escritos em tempos de luto.
O ponto de partida, que deu vida à dramaturgia, aponta para “um tempo de rompimento de fronteiras entre as artes e onde o teatro subverte os limites entre realidade e ficção, no qual a encenação com não-atrizes tem se mostrado um campo potente de investigação, capaz de gerar obras surpreendentesâ€, conta Jonathan Andrade, diretor e também dramaturgo do espetáculo.
Em temporada no Espaço Cena Brasília até 2 de outubro de 2016

“5 Minutosâ€, Um solo poético que transita pela dramaturgia aberta e pela performance, em uma estética lírica e experimental.
A dramaturgia expõe questões éticas da contemporaneidade, partilha e agrega afetos e cria paisagens narrativas de perda, solidão, esperança, amor e saudade. O espetáculo provoca o ser humano em sua tentativa de reinvenção de si e da realidade que o cerca.
Em temporada no Teatro Goldoni até 2 de outubro de 2016

“Entrepartidasâ€,
Espetáculo vencedor do Prêmio SESC Candango 2011 em quatro categorias, sendo Melhor Direção, para Francis Wilker, Melhor Dramaturgia, para Jonathan Andrade, Melhor Ator, para Nei Cirqueira, e Melhor Espetáculo. Entrepartidas convida o espectador a vivenciar propostas contemporâneas do fazer artístico, que passeia pelo teatro, artes visuais, intervenção urbana e performance, pautado em pesquisas de linguagem e na criação de novos meios para o encontro entre arte e espectador.
Em temporada por seis cidades brasileiras, Brasília, Anápolis, Rio de Janeiro, Paraty, Belo Horizonte e Ouro Preto, até 4 de dezembro de 2016.

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