O Artesanato Furioso é o duo de arte sonora, performance eletroacústica e improvisação sobre objetos amplificados criado em Belém-PA em setembro de 2000 pelos compositores Fábio Cavalcante e Valério Fiel da Costa. O duo foi responsável pelo primeiro concerto formal de música eletroacústica do Pará, e ficou conhecido, em 2001, depois de realizar dois concertos de madrugada no desativado Cemitério da Soledade em Belém com ampla participação do público (que julgava estar numa festa rave) e da polícia local. Segue um relato pessoal de como tudo começou:
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o encontro com Fábio
Desde 1995 estudo composição musical em Campinas, retornando a Belém religiosamente durante as férias de julho e dezembro. O Fábio eu conheço desde 1994, quando fomos juntos ao Festival de Londrina ter aulas com o professor Koellreutter. Desde os primeiros feriados vinha tentando construir com o Fábio um movimento de música nova na cidade.
Ao chegar em Belém em setembro de 2000, marquei um encontro com Fábio na Estação das Docas para tomar chope e jogar conversa fora. Ele trouxe o resultado de alguns experimentos sonoros que vinha preparando acho que para uma peça de teatro. Lembro que se tratava de uma música elaborada sobre os sons de um ar-condicionado. Nessa época eu já havia produzido alguns trabalhos em música eletroacústica e tinha acabado de estrear uma peça em São Paulo (O Deserto dos Cães). Surgiu então a idéia de montar um concerto com nossas peças em Belém. Fábio havia arranjado um equipamento que consistia em 4 alto-falantes, dois amplificadores, uma mesa, um tocador de CD e um técnico que montaria o set e nos ajudaria a entender como funciona. Para completar, ele tinha também à disposição um galpão de teatro numa vila da Av. Magalhães Barata onde a Companhia Atores Contemporâneos, dirigida pelo Miguel Santa Brígida, trabalhava.
disponibilidade experimental
O que mais me chamou atenção na peça que o Fábio me apresentou no fone de seu tocador de MDs, foi o seu despojamento formal e uma certa aceitação do som em si como objeto artístico ao invés de usá-lo simplesmente como meio de expressão artística. Considerei isso um sinal verde para realizar experiências radicais. Contrabalançando uma certa tendência nossa à abstração formal, havia uma grande disponibilidade pela experimentação e pelo risco manifestas principalmente na maneira como Fábio escolhia os objetos a serem tratados ou sampleados (gemidos pornográficos, arrotos, sons aproveitados de tomadas de som cheias de chiado, etc.).
Outra coisa interessante era seu ritmo de composição que permitiu a produção, em pouco mais de uma semana, de uma música baseada em três sons de fala breves organizados num discurso frenético de 25 minutos (Música para Sexta) utilizando apenas recursos de edição, processamento e sequenciamento de softwares como Sound Forge e Cake Walk. Tais condições desencorajariam imediatamente um compositor do establishment paulista acostumado com os programas infalíveis e indispensáveis do IRCAM, ao poder do Macintosh e às imposições do meio que fazem com que os compositores tenham vergonha do que produzem caso isso não sirva para manter a evolução da grande arte (leia-se últimas tendências da vanguarda européia pós-serial ou pós-espectral). Outro recurso seu era a performance ao sequenciador acompanhada de sons pré-gravados. Uma espécie de música eletroacústica mista usando sons sampleados.
o espaço
A idéia era montar um set de alto-falantes dentro do galpão e projetar nossas músicas além de obras eletroacústicas de brasileiros ou estrangeiros. As paredes do local estavam pintadas de preto, não haviam cadeiras, apenas tatames no chão. Já que tínhamos toda a liberdade, passamos a convidar alguns amigos músicos dizendo que eles poderiam trazer qualquer tipo de coisa para as performances. Curiosamente ninguém quis se expor num projeto desse tipo, apesar do caráter lúdico da coisa. Avisávamos que muita coisa ocorreria de improviso e isso afugentou a todos. O espaço de performance permanece santificado na cabeça deles. A essa altura o horário e as datas já haviam sido estabelecidos: dias 28 a 30 de setembro de 2000 à meia-noite.
Para nós seria apenas uma oportunidade de estar envolto em sons, mesclá-los a outros, deixar a imaginação fluir sem preocupação com público, horário, funcionamento... uma brincadeira de luxo. Não há recortes de jornal sobre esses concertos pois preferimos não divulgá-los. Ironicamente tivemos um bom público nos três dias e um repórter do jornal ‘O Liberal’ ligou lá pra casa perguntando sobre as performances: “por que vocês chamaram o show de artezanato (com ‘z’)?”... “Ops! Tá escrito com z, é? É erro!”. Lamentou que não tivéssemos procurado o Jornal antes, porque "esse evento era muito importante para a música paraense; é uma pena que não vai dar para divulgar, mas o próximo me dá um toque", etc. Fizemos questão, é óbvio, de não cobrar ingressos. Dissemos: “vamos fazer um som no galpão do Santa Brígida... se quiser, passa lá”.
últimos preparativos
A semana anterior à primeira sessão foi de produção de material para tocar. Decidimos que haveria uma parte importante das performances dedicada a música para alto-falantes. Na verdade essa parte eletroacústica do trabalho está sempre presente como forma de fazer o tempo passar entre uma coisa arriscada e outra (como uma improvisação sobre objetos amplificados envolvendo o público, por exemplo). É curioso que o trabalho tenha sido classificado simplesmente como eletroacústico. Compus alguns trabalhos envolvendo interação entre coisas gravadas e performance ao vivo, pedi à minha esposa Tânia mandar vários CDs de música eletroacústica lá de São Paulo e tentei convencer alguns colegas a participar das performances. O Fábio já tinha um monte de coisas preparadas e ficou fazendo a Música para Sexta, para CD e sequenciador, que estava programada para tocar no concerto da Sexta-feira 29.
O primeiro dia foi a prova dos nove para toda essa estrutura pautada no despojamento. O que vai acontecer? Montamos o set à tarde, aprendemos a mexer na mesa, organizamos mais ou menos o que iria ocorrer à noite, ouvimos algumas músicas, amplificamos a porta de ferro do galpão (que tinha um belo som metálico), experimentamos algumas combinações sonoras usando objetos da trupe que ensaiava lá (como uma armação de um pequeno carrinho de ferro que rangia enquanto era empurrada) e fui fazer um programa impresso que acabou não servindo para nada.
ritual eletroacústico na madrugada belemense
Perto do começo foi chegando um monte gente do nada. Tinham ouvido falar da coisa e vieram curiosos. Alguns me conheciam ou conheciam o Fábio e estavam querendo saber que maluquice rolaria. Trouxeram bebida, deitaram-se nos tatames e criou-se uma atmosfera de ritual. Meia-noite em ponto comecei a tocar a peça 74 do John Cage e liguei o microfone da porta. A idéia era por alguém para manipular a porta e mandar os sons disso para as caixas acrescentando efeitos. O Fábio foi o primeiro portista da noite e ia entregando o instrumento para todos os espectadores que chegavam atrasados. O cara chegava, tava rolando uma atmosfera sonora densa dentro da qual ele era o intérprete solista. Por incrível que pareça isso deu certo. O pessoal entrou no clima e tivemos performances memoráveis. A primeira parte do concerto era de minha responsabilidade e taquei na seqüência uma peça do J. A. Mannis: Cyclone para altofalantes, baseada em um furioso improviso sobre os rangidos de uma cadeira. Toquei a estréia mundial de 5 Voltas em um Parque ou o Acordeonista sob um Teto de Amianto do meu colega Alexandre Fenerich e a estréia paraense de O Deserto dos Cães peça eletroacústica de minha autoria. Deu-se o intervalo e batemos um papo com o público sobre o que estava acontecendo. Muitos expuseram sua impressão sobre o que acabaram de ouvir e conversamos um pouco sobre a questão do gesto na música eletroacústica.
A parte do Fábio contou com peças para sequenciador e MD. Logo no início o choque: Uma versão do Prelúdio e Fuga em dó menor de J. S. Bach construída sobre o som de um arroto sampleado. Lembro que fiquei impressionado com a cara-de-pau do Fábio e fiquei feliz por enxergar os limites de minhas próprias concepções sobre liberdade de experimentação e anarquismo em arte. Seguiram-se peças de Bach, Pixinguinha e um retumbão retirado do folclore paraense, todas realizadas com uma base de sequenciador com solo ao vivo no próprio sequenciador. Meu primeiro concerto de música sobre suporte tecnológico onde sons de General MIDI participam como uma possibilidade tão cabível quanto qualquer outra. Enquanto o Fábio tocava, pessoas da platéia me pediam para participar de alguma coisa. Ao começar a última música, deixei aquela armação de ferro sobre rodas com um espectador (Rogério Carvalho – ex ‘Anjos do Abismo’) que entendeu imediatamente o que fazer: apenas rodar de lá para cá muito lentamente. Fui até a porta amplificada (e no caminho reparei que o Fábio abria o potenciômetro da porta na mesa) e acrescentei uns estalados com reverb ao contexto. O resultado foi muito bom. Com isso tínhamos fechado a primeira noite de modo inesperado e eficaz.
epílogo
Depois que terminamos de arrumar o espaço para poder fechá-lo reparamos que muitos espectadores ainda estavam no local querendo conversar sobre o que havia acontecido lá dentro. Fui levado ao Mercado de São Braz para tomar cervejas na madrugada e discutir música eletrônica, performance, gestual eletroacústico... minha cabeça estava em chamas com o ocorrido. Uma verdadeira mudança se operou na maneira como eu pensava a música e que afetou toda a minha produção posterior. Estávamos experimentando, através do risco, fazer música nova. E essa recém descoberta música experimental belemense tinha uma franca vocação anárquica...
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O Artesanato Furioso ainda chegou a apresentar-se duas vezes mais nessa ocasião, dedicando um concerto formal de música eletroacústica ao dia 29 de setembro de 2000, data histórica do gênero na região; em 2001 conseguiram permissão da prefeitura de Belém para realizar dois concertos no Cemitério da Soledade de madrugada, que acabou se tornando um evento grande demais devido à cobertura enfática e sensacionalista da imprensa local; em 2002 voltaram aos galpões de teatro, dessa vez no “Espaço Bufo”, para mais duas apresentações; em 2003 realizaram performance de mais de uma hora percutindo a ponte Almir Gabriel, sobre o Rio Guamá, na altura do município de Marituba-PA e, em 2006, durante o IV Encontro Nacional de Compositores Universitários deram uma canja improvisando sobre sobras de lixo amplificadas. Um “retorno formal” do Artesanato está previsto para 2007.
Olá Valério! Que projeto interessante, hein? Dá até vontade de ouvir... Se der, poderia colocar uns trechinhos de músicas/performances p/ gente? Outra dica: o texto tá meio longo, tu podias colocar uns intertítulos separando os tópicos (a gente usa mais assim por aqui, em vez desses tracinhos que tu colocastes). É isso! ;)
Mariana Reis · Olinda, PE 4/1/2007 12:02
Oi Mariana
obrigadíssimo pelos toques. Vou tentar por um fragmento de áudio do Artesanato nas p´roximas horas.
abç
Veja no overmundo, na minha página, a peça "A Cela" (2000), que foi tocada no 3° concerto da estréia do Artesanato Furioso, numa versão de 2006. A peça "O Deserto dos Cães" (2000) também foi tocada nas duas primeiras versões do Artesanato (2000-2001)
Valério Fiel da Costa · São Paulo, SP 4/1/2007 13:31
Ótimas noites, principalmente aquelas no galpão dos Atores Contemporâneos. Gostei da onda da partida de xadrez amplificada. Ouvi falar de uma peça no Ópera (ou no Olympia). Cadê?
Abraços!
Fála Rogério.
Tocar no Cine Olympia é um projeto eterno. Queria ter mais tempo e estrutura para realizar uma matinée lá. Quem sabe agora que foi municipalizado a coisa possa acontecer. Vamos ver o que fevereiro nos reserva.
abrç
Ê Valério, muito bacana ver o Artesanato Furioso no overblog do overmundo. Agora que já estou acomodado em Belém, podemos começar a maquinar algo pra tua vinda (em final de fevereiro, né?).
Fábio Cavalcante · Santarém, PA 13/1/2007 22:00
Muitas idéias sendo elaboradas para fevereiro. Precisamos de um espaço, se o Olympia não estiver disponível, veja que alternativas temos. Depois nos ligamos e/ou escrevemos para continuar essa história estranha (o Renato e o Alan Fonseca já toparam participar).
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