O ETERNO CONFLITO ENTRE ÃRABES E JUDEUS

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Beto Leão · Aparecida de Goiânia, GO
31/7/2006 · 12 · 0
 

No momento em que o clima belicoso gerado pela guerra no Líbano se estendeu também para dentro da sociedade israelense, com manifestações cada vez mais freqüentes de intolerância em relação à minoria que se opõe à guerra, estréia em Goiânia o filme "Violação de Domicílio", que tive a oportunidade assisti ontem no Cine Lumière Banana. Baseado em fatos reais, o filme tem um elenco composto por palestinos e israelenses e nos leva a refletir sobre o eterno conflito entre árabes e judeus.

"Violação de Domicílio" marca a estréia do italiano Saverio Costanzo na direção de longas-metragens e reflete o que ocorre no Oriente Médio, onde há dezenas de anos, Israel mantém a ocupação dos territórios palestinos. Nesta região, o cinema tem procurado dialogar o tempo todo com o real, como já pôde ser visto "Paradise Now", de Hany Abu-Assad, e "Free Zone", de Amos Gitai, para ficar apenas nos filmes mais recentes. Não apenas os cineastas, mas também escritores, pintores, todos os artistas têm procurado o diálogo com esse real, tentando interpretá-lo, o que cria uma situação delicada, porque é preciso abordar os problemas sem ser doutrinário, evitando clichês, mas também buscando o politicamente correto, que não leva a nada. É um fio de navalha sobre o qual se tem de caminhar, depois de quase 40 anos de ocupação, o que gerou uma perda geral de sensibilidade por parte de israelenses e palestinos. Pesquisas de opinião indicam que a maioria da população de Israel apóia a ofensiva no Líbano. Mas há uma minoria significativa, que inclui israelenses de esquerda e pacifistas e também os cidadãos árabes do país, que não aceita a posição do governo e exige um cessar-fogo imediato. Em Israel, os protestos de rua contra a guerra viraram alvos de agressões verbais e físicas. Artigos contrários à guerra, publicados em jornais e sites na internet, recebem uma quantidade sem precedentes de respostas agressivas de internautas.

O fato é que, quando animais se sentem ameaçados, eles são capazes de destroçar os outros. Quando a própria sobrevivência está em jogo, acaba a empatia, a capacidade de generosidade diminui significativamente, e esse é um fenômeno internacional, observado também em Nova Orleans, depois do furacão Katrina. Em Israel existe uma raiva enorme contra o Hezbollah, por ter atacado a população, e os israelenses capazes de sentir empatia com o sofrimento dos libaneses são uma minoria.


Dogma heterodoxo e extemporâneo, "Violação de Domicílio" mostra a ocupação de uma casa de classe média na Faixa de Gaza, entre um assentamento judeu e uma vila palestina, pelo Exército israelense. Concebido e dirigido como um psicodrama pelo italiano Saverio Costanzo, o filme mostra a convivência forçada entre uma família palestina - que ocupa o andar térreo durante o dia e à noite é confinada à sala de estar - e os jovens soldados israelenses, que ocupam os andares superiores. Mostra uma família palestina tem um bom nível de vida cujo patriarca, Mohammad, é diretor numa escola e está completando o doutorado. O casal e os cinco filhos vivem no meio de um caminho que liga um assentamento israelense e uma aldeia árabe. Só que um tiroteio muda profundamente a rotina da casa. O pai é comunicado que soldados precisam invadir o segundo andar e por motivos óbvios de segurança pede para que todos saiam da residência temporariamente.
Mas o Mohammad não está disposto a deixar para trás o lugar que simboliza sua dignidade e resolve ficar. A partir desta decisão, o cotidiano tenso junto do exército causa cisões de vários níveis entre os familiares. Simples na estrutura narrativa e sem planos marcantes, o filme cria um clima inquietante, tenso, perturbador, que é reforçado pelos enquadramentos e movimentos de câmera nervosa, que lembram a estética dos dogmáticos dinamarqueses da década de 1990.

Segundo os produtores do filme, esta teria sido a primeira vez, desde a Segunda Intifada, em que atores palestinos e israelenses dividiram o mesmo cenário em papéis tão delicados. Essa é uma das razões pelas quais emana das imagens uma triste verdade, intensificada pela câmera dinâmica, pelos planos furtivos e pela adoção de uma linguagem francamente documental. Candidato unânime do comitê italiano de seleção para o Oscar de melhor filme estrangeiro, o filme foi rejeitado pela Academia de Hollywood por ser falado apenas em árabe, hebraico e inglês - as regras pedem que produções estrangeiras sejam faladas prioritariamente na língua do país que representam. O final do filme deixa para o espectador uma reflexão sobre os rumos dessa Guerra Santa iniciada logo após a Segunda Guerra Mundial, quando o Reino Unido expressou sua intenção de retirar seu mandato sobre os territórios palestinos.

Na época, a Assembléia Geral da ONU propôs a divisão dos territórios em dois Estados, um Estado árabe e um Estado judeu, com Jerusalém sob administração da ONU. Grande parte dos judeus em territórios palestinos aprovaram a proposta, enquanto a maioria dos árabes a rejeitou. A violência entre árabes e judeus emergiu quase que imediatamente. Durante o período final do mandato britânico, os judeus planejavam declarar um Estado separado, enquanto os árabes estavam determinados a impedir a medida. Em 14 de maio de 1948, as últimas tropas britânicas se retiraram dos territórios palestinos e os judeus declararam a criação do Estado de Israel, de acordo com o plano de 1947 da ONU. Em 12 de julho de 2006, eclodiu o atual conflito entre Israel e o grupo terrorista libanês Hezbollah, depois da morte de oito soldados israelenses e do seqüestro de outros dois. Ao menos 36 morreram em Israel --19 soldados e 17 civis mortos por foguetes do Hezbollah.

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