Sendo o quinto álbum da banda gaúcha, “O Papa é pop”, foi o disco que definitivamente colocou os Engenheiros do Havaii, no hall das grandes bandas do Rock Nacional, ao lado da Legião Urbana, Titãs e Paralamas do Sucesso, vendendo entre 350 a 400 mil cópias, sendo até mesmo considerada a melhor banda do país, por algumas revistas especializadas. Fato surpreendente, considerando que, o Rock Nacional era regionalizado, e as maiores fatias do mercado eram partilhadas entre as bandas do Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília.
Com um som mais limpo, a banda assume uma sonoridade mais pop, inclui teclados e bateria eletrônica e toques mais suaves, na guitarra e no baixo. Assume um perfil mais comercial, rompendo com o estigma de banda de garagem, que as vezes a colocava na situação desagradável, de abrir shows, para bandas, que entendiam ser de menor qualidade, pelo fato delas terem mais prestígio e estarem melhor colocadas na mídia.
A capa, escapando do estilo underground das anteriores, mais pop do que nunca, é a clássica foto da banda no sofá, no melhor estilo ‘Simpsons’, marca a entrada espontânea dos Engenheiros no universo da cultura pop, sem aquela de “traidores do movimento”, que fundia a cabeça do pessoal punk.
A utilização das cores vermelha e preta é uma referência ao Clube de Regatas do Flamengo, considerada a maior torcida do Brasil, e por isso mesmo pop, e do Papa João Paulo II, ter vestido a camisa do mesmo, em sua visita ao Brasil em 1980. Ponto para a torcida do Flamengo.
A versão Vinil tem um lado chamado PAPA e um Lado chamado POP, e não contém a canção “Perfeita Simetria”, que só foi lançada na versão CD. Já o encarte do CD, contém uma foto do Pontífice João Paulo II, tomando chimarrão (ponto para os gaúchos), retirada do acervo pessoal, de Leonel Brizola, sendo a mesma gentilmente cedida pelo fotografo Carlos Contursi, autor da imagem, e pelo próprio Brizola. Ponto para os socialistas.
Na canção título, “O Papa é pop” os Engenheiros desfilam a dependência da sociedade de consumo em relação à cultura pop. “Todo mundo tá revendo o que nunca foi visto, todo mundo tá comprando os mais vendidos. É qualquer nota, qualquer notícia, páginas em branco, fotos coloridas, qualquer nova, qualquer notícia, qualquer coisa que se mova é um alvo e ninguém tá salvo...”
Já adotando o método “variações sobre o mesmo tema”, comum em toda a obra dos Engenheiros, junto as famosas frases de efeito, a canção “Perfeita Simetria” se utiliza da mesma melodia de o “Papa é pop”, o que não agrada em parte aos fãs. Aí é o próprio Humberto Gessinger, líder da banda que explica: “usar a mesma melodia não é falta de inspiração para novas composições, o caso é que sobrou inspiração para a mesma melodia”. De fato, “Perfeita Simetria” tem uma temática, mais pessoal: “O teu maior defeito talvez seja a perfeição, tuas virtudes talvez não tenham solução {...} Perdoa o que puder ser perdoado, esquece o que não tiver perdão e vamos voltar aquele lugar...”
“Era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones” é a primeira gravação não autoral dos Engenheiros, foi também a primeira musica que o Gessinger, aprendeu a tocar no violão, e também foi muito tocada pela banda nos showmícios, que a mesma participava, tocando para o presidenciável Brizola nas eleições de 1989.
A canção “O exército de um homem só” foi dividida em duas canções, ou será que são duas canções com o mesmo titulo? Bom isso exige um estudo mais aprofundado ao que estamos nos propondo, sabe-se apenas que foi inspirada na obra homônima de Moacyr Sciliar, e que a primeira parte trata invasão ao espaço aéreo soviético, por Mathias Rust, um aviador alemão que conseguiu aterrar na Praça Vermelha, com apenas dezenove anos de idade e, a segunda parte trata da tentativa de invasão ao espaço privado de uma enfermeira, quando o mesmo esteve na prisão.
Para quem curte mensagens subliminares essa é ótima: a faixa “Ilusão de ótica”, na versão do LP, quando o prato girava no sentido contrário, diz a lenda, onde se ouve as expressões: “Por que você roda assim? Eu não gosto que rode assim”, se ouvia: “Por que é que você está ouvindo isto ao contrário? O que você está procurando...”, e outras baboseiras, que podem ser interpretas como coisas satânicas. Nada pode ser mais pop do que isso!
“Pra ser sincero”, a balada romântica do disco, e mais bonita do ponto de vista estéstico, é um “chega pra lá”, ao bom e velho estilo do Rock in roll, com belas sacadas irônicas do Gessinger: “Pra ser sincero não espero de você mais do que educação... Não se sinta capaz de enganar quem não engana a si mesmo... Nós dois temos os mesmos defeitos, sabemos tudo a nosso repeito, somos suspeitos de um crime perfeito, mas crimes perfeitos não deixam suspeitos....”
Na faixa “a violência travestida faz seu trottoir” a referência a um bilhete suicida, daquele que se deixou embriagar pelo consumismo sem freio, o ultimo suspiro de quem tomou doses animalescas de cultura pop: “Tudo que ele deixou foi uma carta de amor pra uma apresentadora de programa infantil. Nela ele dizia que já não era criança, e que a esperança também dança como monstros de um filme japonês. Tudo que ele tinha era uma foto desbotada, recortada de revista especializada em vida de artista. Tudo que ele queria era encontrá-la um dia (todo suicida acredita na vida depois da morte). Tudo que ele tinha cabia no bolso da jaqueta. A vida quando acaba, cabe em qualquer lugar.”
Sim, tem também um pedido de desculpa ao Lulu Santos por Gessinger o ter acusado de fazer musica de entretenimento, coisa de gente pop mesmo!
Creio que você não vai mais ouvir este disco da forma que ouvia antes, desculpa ai, foi mal.
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