Lapinha de barro, fotografia Evaristo Ferreira.
Meu menino Deus, aqui vós ficais,
Até para o ano se vós nos deixais.
Se vós nos deixais damos graças a Deus -
Minha Nossa Senhora, e o Senhor Santos Reis....."
Este bem-dito fechou o calendário de cada ano nos lugares de criatório de gado, pelo sertão do Nordeste do Brasil, sintetizando ganhos e confirmações; assim como abriu o ano seguinte depositando-lhe esperanças, desejos, coragem, alegrias, resignação.
A criação extensiva de gado exigia, claro, grandes áreas. Assim as células familiares ficavam distantes; as casas guardavam entre si gleba suficiente para a pastagem de cada rebanho. Aquelas "lonjuras" impuseram necessidades entre pessoas e assim "humanizaram" o convívio entre senhores e escravos. A atividade impedia a adoção das senzalas. Ao contrário da monocultura, quer do açúcar, quer do café; e ainda da mineração.
O NATAL, o fim da distância.
Era o ponto do encontro entre familiares, conhecidos, amigos. . Os parentes distantes chegavam com até 30 dias de antecedência. As crianças "mudavam-se": conhecer os tios, primos, avós. O Natal era a humanização da mistura social - senhores e escravos; pobres e ricos; fazendeiros e vaqueiros; o ponto na continuação dos laços familiares; o saber dos primeiros sinais da força homonal; a continuação das manifestações no Natal passado. Entre as conversas adultas e a inocência das cantigas de rodas, as promessas dos amores que se iniciariam
Menina dos olhos pretos
não fica pra mim olhando,
Mode o povo não dizer
Que nós tamos namorando
Quanta inocência, quanto sonho - desfeitos, não raro. Mas não era culpa do Natal As vozes juvenis a ecoar nos terreiros, no jogar dos versos. Os reclamos dos namoros que se diluiram, a dor.
Os olhos da cobra é verde,
Só hoje que arreparei,
Se arreparasse a mais tempo
Não amava quem amei...
O TERÇO
As velas em cordão, pavio envolto em cera de abelha de espécie diversa, proporcionavam colorido e aroma tão variados quanto agradáveis, indicando a presença da Santa.
-Ôh! Comadre, acho que Nossa Senhora das Candeias, quer a abertura. Como nos "Preto Gato", foi tão bonito!
A Irmandadade de Na. Sra. do Rosário, para veneração pelo negro escravisado na Europa, foi criada em 1409, pelo catolicismo alemão. Em 1500 chega à Guiné; 1552 em Recife, na monoculta da cana.
Ali, no sertão nordestino, não havia rosário, tudo era cantado. No canto tudo se misturava - os homens e suas crenças. Ali Na. Sra. do Rosário é dispensada. A Aristocracia sertaneja a troca por Na. Sra. das Candeias. A rudeza do rosário dar lugar ao simbolismo da luz, á graça do cantar, dos bem-ditos cantados puxados pelas escravas, seguidos pelas senhoras, secundados pelos homens.
Bem-Dito louvado seja,
a luz que nos alumeia,
Valei-me Nossa Senhora,
Ôh! Mãe de Deus das Candeias.
Valei-me ......... (bis, voz por fora).
Assim a melodia mais bonita, mais agradável dos Bem-Ditos do Brasil, ecoa. Era como se a partida fosse de fora para dentro e a chegada de dentro para fora. Todo o espaço ocupado.
A NOITE DE NATAL
Raramente há lua cheia no Natal. Naquele ano o despontar da lua veio a indicar a hora de iniciar o terço.
As rezadeiras ocupam os lugares a um passo do altar ; os homens nos terreiros, perto às janelas - ajudando de fora, com a "voz de fora".
Como por milagre: à meia noite. Sem relógio.
Bateu asa e cant'ô o galo,
Respondeu a mãe de Deus,
Quem canta Nestas Alturas,
É o nosso Menino Deus
Coisa mais singela e bonita essa mensagem de Natal!
Boas Festas e um Ano Novo de Esperança!
Beijos, André!
Belíssimo texto, André!
O Natal era a humanização da mistura social - senhores e escravos; pobres e ricos... Este deveria ser o verdadeiro sentido do Natal sempre! Foi para nos ensinar estas lições que o Menino Deus nasceu...
Aqui onde moro, a Igreja de Nossa Sra. do Rosário é muito linda e Ela é muito venerada por aqui. Alíás, a Igreja atualmente é nossa Matriz provisória, pois o teto da Matriz foi devorada pelos cupins.
Uma perda irreparável, pois nossa Igreja é uma verdadeira obra de arte. A cidade está em busca de patrocinadores e financiamento para restaurar nosso patrimônio.
FELIZ FELIZ NATAL!
Abraços!
"Quem viaja pelo mundo
tem histórias pra contar"
Quanta simplicidade em natais que já não se vive mais... amei os seus ensinamentos !
abçs de betha.
André,
O que senti lendo e relendo o seu texto me calou fundo o coração. Através do que escreveste senti saudade de um tempo que não vivi e de lugares que não conheci.
O bom da arte é que ela possibilita viajar por lugares e por tempos diversos.
E quando o artista é bom, podemos sentir isso de forma bem prazerosa.
Parabéns!!!
Feliz Natal e tudo do bom e do melhor para 2008
Querido Andrè:
Muito lindo o teu natal.Fiquei encantado e já pedi pra ser avisado quando for a voto. Rapá você precisa se entrosar no nosso grupo!
beijos e abraços
do Joca Oeiras, o anjo andarilho
Cris, minha doutora;
Nydia, minha poetisa destas terras paulista;
Betha, minha Professora, poetisa de Pernambuco;
Zezito, meu Professor; e
Joca, Meu Piauiense de adoção:
Assim vamos chegando num Natal de costumes mudados, pouco importaria ao Mundo se a mudança fosse apenas comercial, comercial de caixeiro. Mas ela é mudança de caráter. É mudança de (des) entendimento. E ai cada um dos que podem se manifestar deve tentar fazê-lo no sentido da humanização entre as pessoas.
Mas, não há prazer maior que o de ser lido. Ser lido por aqueles a quem o escrito possa auxiliar; ser lido por aqueles para quém o escrito traz curiosidades apenas.
Assim obrigado, Feliz Natal;
Bom e próspero Ano de 2008.
andre.
Axe' Andre,
obrigado pelos votos que desejou. pra vc, em 2008, muita saude e paz, prosperidade.
Natal... eh uma coisa simples, porem, fica as veses tao complexa. Pudera, 'inventado' na turquia, e sendo levado mundi afora, o ritual diria-se, de fazer a caridade mistura-se com a dinamica do capitalismo e materialismo.
Mas, coisa de homem, ao homem o que eh do homem.
Vale a tua oracao, pra servico da familia, do bem estar e do entendimento entre os homens, e os 'homens'.
Abrx
jc
Meu querido, se o Menino Jesus (quem dera) houvesse passado por aqui, pequenino como era, teria sorrido feliz com essa mais perfeita representação do amor que Ele veio ensinar, cantada assim pelo povo inocente do jeito dEle.
Que coisa mais linda do mundo!
Obrigada.
beijos
Querido Andre:
Agradeço teu convite pra vir rezar no teu terço de Natal, no teu belo O NATAL no sertão
Linda oração!
Bem-Dito louvado seja,
a luz que nos alumeia,
Valei-me Nossa Senhora,
Ôh! Mãe de Deus das Candeias.
Valei-me ......... (bis, voz por fora).
AMÉM!
Beijos_Meus*
*
Dada e devida proporção e o considerando o espaço-tempo, esta passagem do texto me soa íntima: " Assim as células familiares ficavam distantes; as casas guardavam entre si gleba suficiente para a pastagem de cada rebanho." Minha famíla, digo, eu, meu pai, minha mãe e irmã, ficamos longe do resto da família por quase 18 anos, período que morávamos em São Paulo. Basicamente, o primeiro Natal juntos com tios, primos e avós, aconteceu em 2003.
Um abraço e um Feliz Natal para TODOS.
Andre,
Andre, coisa doida de linda! Lindeza! Cheio de laços de fita, moça bonita, os meninos e toda a família unida.Que lindeza e gostosura da boa esse tempo que eu, particularmente, já não tenho mais...
Mas o Menino taí, sempre e a gente tem é que cantar!Muito lindo, você fechou! Ou abriu caminhos em corações...Adorei. Esse vou fazer até cartão!
Deus tem o tamanho do vazio da gente! ...
Meu abraço.
.
Andre... ta votado agora.
Aquele abr, e boas festas e rodas.
Não devo dizer, mas voltei para votar bem votado e votariamais 10 vezes, se pudesse.
beijos
Meu amigo André, a beleza desse texto condiz com o conteúdo do seu autor.
Pois singeleza aliada á humildade e a magnitude literária só poderiam compor tudo o que vc sempre mostrou por aqui.
Leveza, beleza e encantamento literário.
Um grande bj
Além da lembrança em si, um texto exemplar. É GILBUÉS pulsando em cada linha, em cada canto registrado em cada memória gravada na tela do computador.
Curiosamente, o melhor aspecto do NATAL para mim continua sendo suas canções, suas músicas mesmo que só instrumentais. Grato pelo convite, teu texto nos remete a um Passado que infelizmente não volta mais. Só podemos lamentar !
Querido mestre, teu recado lá em meu singelo postado me trouxe a esse teu belo e ilustrado canto do povo.
Grato pelo convite.
Pelas felicitações, retribuo, qurendo que tenhas mais felicidades do que queiras e que o natal permita que encontremos o que de humano há em Jesus, sem sangue, sem espinhos, nem cruz, braços abertos para o belo.
Mestre Geronimo, meu mestre,
Saramar, minha poetisa,
Lili, minha escritora
Saiu errado, bati sem querer, melhor lhes falo duas vezes.
Mestre Geronimo, meu Mestre de muitas andanças;
Saramar, minha Professora, poetisa adorável;
Lili, escritora de talento e graça;
Cintia, Poetisa - contista de tanto acudimento;
Ligia, beleza andante, poetisa cantante;
Nato, exemplo de coragem inabalável;
Prof. Adroaldo, experiência e saber sempre presente:
A falta de tempo me dar o prazer de juntá-los numa única fala,
e assim os vejo no mesmo momento - ajudando, orientando, indicando, estimulando - assim, lhes agradeço e assim lhes abraço,
no momento entrante do Natal; assim os trago para a lembrança;
assim lhes entrego neste Natal e nos dias que se seguirão aos cuidados de Na. Sra. das Candéias;
um grande abraço,
andre.
Felipi, meu reporter
As semelhanças, como diz mesmo, defasada no tempo-espaço, da sua e dos seus familiares, entre trecho da sua vida
e o contar do meu escrito me levou, a pedir licença aos referidos anteriormente, para lhe dizer que a saudade é assim: Deixa um que
de satisfação - é como se sendo a testemunha, coroa a saudade
no encontro.
um Feliz Natal, e 2008 cheio de realizações.
andre.
Nossa! Home de Deus! Que trem mais lindo você, com suas lembranças, fez cair dentro do meu coração.
Apesar da labuta, que ocê sabe que não é fácil, a gente vai somando e no final dá certo.
Aqui em Alvinópolis quem tá na frente é Nossa Senhora do Rosário. É ela quem guarda nosso povo sofrido, desde a época da escravidão, e hoje, os dançantes, o Rei, a Rainha do congado e toda sua comitiva agradecem pelas bençãos recebidas, nesses anos todos.
No natal, seu Filho é louvado com muita alegria por nossa gente.
Vale lembrar que toda casa tem um docinho para ofertar, ora cajuzinho, ora figo em calda, docinho de leite picadinho, enquanto a leitoa assa no forno de barro, abrindo o apetite de todos.
Ninguém fica com fome, tem leite pra quem quizer beber, é só levar um balde que o fazendeiro trata de enchê-lo até à boca.
Quem quizer pão de graça é só ir na padaria que os filhos de Sô Zé de Afonso enche a sacola. Sabe porque estou te contando tudo isso, pra gente lembrar que o Menino Deus enche de solidariedade o coração de todos nessa época de natal.
É lindo, lindo, lindo o poder de Jesus em nossas vidas.
Um feliz natal para voce e sua família.
Um FORTE abraço da mineira.
Agradeço por me dar a oportunidade de poder ler tamanha beleza em forma de texto. Parabéns, meu amigo André! Estou de volta, posso passear neste terreno de forma mais tranquila!
Um beijo,
Priscila.
Parabéns, Andre.
relato muito interessante!!!
tenha um ótimo Natal e um 2008 de muita Paz e realizações!!!
grande abraço,
Um Natal abençoado, nesse sertão lindamente poetado.
Beijos_Meus*
*
André querido,
Lindo Natal o que expressa seu texto. Foram poucos os textos natalinos que visitei (estou de férias) mas, esse que vc nos trouxe me deixou muito emocionada, afinal, sou também nordestina.
Parabéns e obrigada por compartilhar comigo tão belo texto.
Feliz Natal!!!
Bjos
Andrê meu nêgo...
vim te dar um cheiro de feliz tudo em 2008
e apreciar seu natal cheio de cantigas e lembranças.
Maravilhoso.
Foi bom te encontrar neste over mundo de Deus.
Até...
Olá André.
Todos já disseram o quanto é lindo seu texto... Mas não é demais repetir. Muito bonito mesmo. Fiquei feliz que tivesse me dado a oportunidade de conhecer suas lembranças... Desejo a vc um feliz 2008, cheio de inspiração e de desejos realizados. Bjs.
Olá tão distante Andre
Que bela lembrança Amigo
Me transportas aos Natais da minha infância
Distantes também no tempo, presentes porém, em
minhas recordações queridas, da mesa farta e grande, da familia
reunida, de bisavós a bisnetos, de gente sem familia, da alegria, apesar da morte precoce do leitão, da cesta que era única e só aberta no dia, do doce de leite com queijo, de mamão e de cidra e do pão amassado e assado no forno em brasa, que assou o perú!
Quantas saudades você em mim despertou!
Um Feliz Natal
Pessoal,
Anamineira, minha querida Ana;
Priscila, menina bonita dessas terras sergipanas,
Marcos Andre, meu poeta valoroso,
Ilze, minha batalhadora de são salvador,
Roberta, minha lindeza de Palmas,
Léa, batalhadora dessas terras paulistanas,
Regina, mais prestimosas das overmanas recentes,
A todos muito obrigado por terem ido rezar no meu Natal.
E é véspera de Natal. A todos, a todos mesmo um abração, e um Feliz e armonioso Natal,
andre.
Olá meu grande poeta Andre,
que beleza de texto meu amigo e quantos ensimentos tranmitistes neste teu escrito. Meus sinceros aplausos e abraços.
Carlos Magno.
Neste tempo era o amor e a compaixão humana presente nos natais. Um grande texto!!
Anilson · São Luís, MA 31/12/2007 18:02
Lindo, simplesmente lindo.
Dizer mais pode estragar.
André,
Lindo, de uma autênticidade ímpar! Parabéns!
. No Sertão ainda há festas com essas características, as carolas "sobrevivem", resistem ao desdém dos incultos e alimentam-se da fé...
Um aBRAÇO grande André, Marluce
Querido Andre, você me perdoa por só hoje eu atender ao seu chamado pra vir aqui rezar, lhe ajudar no seu terço de Natal?
Pois eu vim, e só de ler essa beleza de texto já rezei porque ele, por si só, é uma oração.
Que coisa importante foi pra mim conhecer esse sentido do Natal para os criadores de gado do sertão nordestino. Embora sendo "flor do asfalto", não tendo por isso experiência própria da riqueza da cultura popular, também vivo o Natal como o "fim da distância" entre as pessoas.
De tudo o que li, que de tanto gostar imprimi pra tornar mil vezes a ler, o que mais gostei foi o pedaço do terço em que vc mostra que no sertão "não havia rosário, era tudo cantado. No canto tudo se misturava - os homens e suas crenças. [...] A rudeza do rosário dá lugar ao simbolismo da luz, à graça do cantar, dos bem-ditos cantados puxados pelas escravas, seguidos pelas senhoras, secundados pelos homens." Tem coisa mais bonita do que isso?
Muito obrigada, de coração, por me ter dado a ler esses bem-ditos. Eles puseram ternura na minha alma e me fizeram pedir a Nsa. Sra das Candeias que zele por mim, por minha família, por você, pela sua filhinha e por todos os overmanos.
Valei-nos Nossa Senhora,
Protegei o Andre e sua família, permitindo a eles que 2008 seja um ano bendito.
Beijos da
Ize
Andre Pessego · São Paulo (SP) ·
Muito Bonito Mestre Andre.
Vderdadeira Imensidáo.
Grande contribuição paratodos nós.
Obrigado por seu Capricho.
Abração Amigo.
Obrigado aos que passaram depois da publicação
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Andre Pessego · São Paulo, SP 21/12/2008 23:13Para comentar é preciso estar logado no site. Fa�a primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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